Análise PADRIM - FBC

Fala vocês apoiadores da cena local! É uma satisfação imensa poder tocar esse projeto com uma gurizada engajada e acessível. Confesso que tô orgulhoso e um pouquinho de receio por ser o meu primeiro texto aqui pra plataforma.

Gostaria de começar com puta que pariu Fabrício! Aqui temos o álbum com o maior engajamento através das redes sociais que eu já pude presenciar, simplesmente todo artista que sigo falou sobre o fatídico 15/11 confia em algum de seus perfis.

E não foi à toa sabe? O cara tem um carisma absurdo, associado com um ímpeto enorme de espalhar a sua palavra de maneiras relacionáveis. Responsável por espalhar trap de qualidade diretamente de BH (e sinceramente, que leva sensacional de artistas BH tá produzindo hein??).

Mas então, aí tu pergunta “Sandinão, quem diabos é FBC mano?” e eu te respondo ó meu caro… Filho Bastardo do Caos, vulgo Fabrício, o bicho é brabo, tá no corre há anos, cria das batalhas de BH, foi cofundador da DVTRIBO (também conhecida como a nata da nata de BH, Clara Lima, Djonga, Hot,Oreia e o Coyote) enfim, gigantes da cena se juntando não tinha como dar errado.

Eu mesmo fui conhecer ele lá em 2016, quando ele e a gurizada da DV Tribo lançou um som chamado Diáspora e desde então a admiração só cresceu. 

A real é que chega de delongas mano, estamos aqui pra falar do segundo álbum de estúdio do homem e vamos para as vias de fato. Lançado no dia 15 de novembro de 2019, PADRIM é mais um daqueles álbuns que foi produzido apenas por um nome e dessa vez ele se chama Go Dassisti (esse aqui já produziu uma pá de louco, Luccas Carlos, Bril, Febem, Clara Lima, bah a lista é extensa). Particularmente curto muito esse rolê, dá uma cara mais uniforme, mais constante pro álbum.

Condensando as vivências, fruto do sucesso de S.C.A, a partir de uma perspectiva financeira mais estável, após conquistar a habilidade de prover, temos um Fabrício mais introspectivo, um contador de histórias por assim dizer.

Esse trabalho é majoritariamente trap, com exceção das duas últimas faixas que mudam o tom do álbum e aqui, como em todo bom trabalho de rap, temos vivências destiladas, aquela visão de cria, uma dose de desabafo e, pra completar, aquela pitada de “ontem eu não tinha nada, hoje eu posso tudo” proveniente do sucesso de seu corre.

PADRIM é um dos trabalhos que incluem os instrumentais, gosto muito também. Contendo 10 faixas e uma duração de aproximadamente 30 minutos temos aqui o que considero o equilíbrio pra uma produção dos dias de hoje, aliás, louco pensar como as plataformas de streaming e a efemeridade dos lançamentos acabam por moldar a maneira que o artista se expressa com seu trabalho.

Sempre bom chamar a atenção da capa, a simplicidade, a inocência e a descontração aqui conduzem esta imagem, que por sinal me traz uma grande nostalgia ao lembrar dos aniversários da gurizada do beco aonde moro. Épocas mais simples com problemas mais simples.

Partindo pra intro do álbum (bah sério eu amo intro em álbuns de rap) começa com uma skit, que em resumo é uma esquete bem-humorada interpretada pelo próprio artista. Jogador assumidaço de Free Fire essa faixa já começa com barulhos bélicos de quem tá naquela trocação até que recebe uma ligação da Flávia (irmã do Fabrício) avisando que o irmão mais velho está de aniversário e passando o número dele.

Xô falar procês que bem ao fundo do som eu escuto uns barulhos do que parece um oralzão, seguido dumas respiradas pesadas dele e bah, no momento que percebi isso perdi absolutamente todas.

Temos MONEY MANIN como a segunda faixa e essa é daquelas que abracei desde a primeira ouvida, trapzinho gostoso aonde é narrado uma conversa durante um assalto com a tentativa de conseguir a empatia do ladrão, que aponta a arma pro Fabrício, dizendo que vem do mesmo lugar que o mesmo. Infelizmente não dá certo e ele acaba baleado no fim do som. Começando assim com o refrão:

Isso é só money, manin’ (Isso é só money, manin’)

Não vale sua vida, manin’ (Não vale sua vida, manin’)

Não vale sua vida, manin’ (Não vale sua vida, manin’)

Isso é só money, manin’ (Isso é só money, manin’)

Isso é só money, manin’ (Isso é só money, manin’)

Baixa essa peça, mano (Baixa essa peça, mano)

Baixa essa peça, mano (Baixa essa peça, mano)

Não vale sua vida, manin’ (Não vale sua vida, manin’)

Isso é só money, manin’ (Isso é só money, manin’)

Isso é só money, manin’ (Isso é só money, manin’)

Não vale sua vida, manin’ (Não vale sua vida, manin’)

Isso é só money, manin’ (Isso é só money, manin’)

Isso é só money, manin’ (Isso é só money, manin’)

Não vale sua vida, manin’ (Não vale sua vida, manin’)

Baixa essa peça, mano (Baixa essa peça, mano)

Baixa essa peça, mano (Baixa essa peça, mano)

Que o sistema é uma engrenagem de moer pobre, empurra aqueles que estão em estado de vulnerabilidade social para a vida do crime é sabido há anos. Pessoas roubam por n motivos, que variam da necessidade à vaidade, da aceitação de um grupo, sustentar vícios ou até mesmo por prazer, porém a questão retratada aqui por ele é que isso, realmente, não vale à pena.

Tem uma entrevista sensacional do Mano Brown no canal da Le Monde Brasil (linkzinho pros curiosos) em que ele passa uma visão ampla dessa realidade, vale muito os 20 minutos gastos.

Muito ouvi que a vida do crime geralmente tem duas saídas, cadeia ou morte e ambas as opções não compensam.

E bah, baixa essa peça, mano é algo tão sincero tá ligado? Armas só existem pra cumprir um e APENAS UM propósito, matar. Quem argumenta o contrário só pode ser um das duas opções: burro ou mal intencionado.

Tem mais dois versos que quero destacar, sendo o primeiro:

Baixa essa peça, mano
Já basta isso agora essa hora
Eu já tive uma semana da porra
Parece até que me fizeram voodoo
Magia branca lá do Donald Trump
Capital aqui não vende nenhum

O chorume racista do Trump dispensa introduções não é mesmo? Aqui temos uma bela alternativa para o uso de “magia negra” através do ódio destilado que esse cor de cheetos lua promove. Bem, bora pro próximo:

Me senti bem com ela, mano
Amanhã vou ver ela, mano
Então baixa essa peça e me deixa passar que eu nem tenho money, mano
Esse tênis ganhei, a camisa roubei
Tudo isso do mesmo mano
A corrente eu comprei, eu mesmo parcelei no governo do Lula, mano (Lula livre)
Raiva é da cabeça
Por mais que pareça, isso não é saída pra vida que leva
Então baixa essa peça, mano

Usando tudo no seu alcance, FBC tenta se agarrar na tentativa de empatizar o assaltante através de duas situações: A sua amada e sua condição financeira. 

Aparência não é necessariamente um indicativo de poder aquisitivo e esse verso retrata isso, aliás, já são 10 anos que o Lula deixou a presidência e seu legado de conquistas sociais. Caralho, 10 anos, parece que era ontem que lia as notícias sobre como o riscaram o Brasil do mapa da fome, reajuste de salário acima da inflação, a oitava maior economia do mundo, os índices de escolaridade subindo… Enfim, tempos que levarão anos para serem recuperados.

Bom, fim do som ele toma uma ruim e os caras pegam o que ele tem de valor. Bora pro próximo.

ASSIM QUE SE SENTE é o nome da terceira faixa e essa aqui meus amigos é uma senhora paulada feita em cima do sample de Tá Fluindo do Poze do Rodo. Enfim, aulas, visão de cria, questionando o famigerado status quo, botando o ódio pra fora tá ligado?

Terei que destacar inteiramente os versos desse som porque puta merda, se liga:

Diz a qual a distância que tu tá do tiro
E eu te direi o peso do seu privilégio
Me diz se algum dia tu buscou seu filho
Com a boca em pleno vapor em frente ao colégio
Eu não sei
E, se alguém souber, fingiu
O quadro é grave, precisamos de mais Marielles vivas
Sendo vidas livres, porque as correntes… (Eu não sei)
Talvez pra nos lembrar o que fomos
Pra não sermos novamente
É assim que se sente (É assim que se sente)
Quando a polícia para a gente
Pergunta da roupa e da tatuagem
Pra onde tá indo e se tem passagem
É assim que se sente
O doc tá pago, não condenado
Eu tava aqui igual todo mundo
Me diz a razão dessa abordagem
É assim que se sente

Visão passada por demais, tá tudo cru e escancarado aqui, vivência, racismo estrutural, opressão sistemática da PM, milícias, tráfico, tudo condensado de uma maneira íntima e passada adiante em tom de desabafo.

Na segunda metade da música temos:

Diz a qual a distância que tu tá do topo
E eu te direi “Tá louco? Isso é privilégio.”
Não ter um filho ou uma filha tendo outro filho
Perdendo três anos do Ensino Médio
Eu não sei (Eu não sei)
Quem começou isso eu não sei (Eu não sei)
Se perguntarem a Bolsonaro, ele dirá “Não sei”
Pra ver um de nós reconhecido, merecido
Satisfeito em superar um boy qualquer tendo nascido
Numa família disfuncional
Impossível manter uma mente sã
Assistindo ao vivo seu pai e mãe
Saindo na mão logo de manhã
Sai dessa, menina, enquanto dá
Ele nunca te mereceu
Foda-se a casa, se a conta tá paga
O que importa é amor e ele nunca te deu

Chegando igualmente incisivo na sequência aqui temos mais ideias conscientes conectadas de maneira mestral. Minha irmã mais velha engravidou cedo, aos 15, isso é barra demais pra alguém dessa idade, assumir uma responsa vitalícia dessas, pesado.

Na finaleira ainda mandou aquele papo, passando a visão pras minas abrirem o olho, seja com uma relação complicadamente paterna ou romântica, naquele pique “onde não puderes amar não te demores”. Esse verso também me fez pensar na relação quase que única de emancipação familiar, também conhecida como independência financeira. Crescemos tão encabrestados com essa visão que esquecemos de como existem tantas outras coisas mais importantes do que dinheiro.

Dando sequência temos CAPA 3 e esse som ter um caráter bem mais descontraído que as faixas antecedentes, aqui temos aquele clássico egotrip, a pagadinha (eu sou da teoria de que a pagadinha sempre é válida desde que tu tenha o proceder pra sustentar), enfim, eu não jogo Free Fire mas conheço uma gurizada que dale e eles me explicaram que essa música foi batizada a partir dessa parada. O famoso 3 capa pode ser traduzido como uma maneira de meter uns headshots no FF mirando em um ponto do peito e deixar mira subir com o recuo natural da arma, e né, nada mais prazeroso do que peneirar o cocão dos adversários.

Diz qual a fórmula do sucesso:
Vender feat ou ingresso?
Ser por muitos um cara invejado?
Confesso, se fosse por isso, eu tô perto

Falei, não falei? Isso aí me lembrou um verso do Emicida em Emicidio:

O que é ser o maior? Mandar bem?
É, o maior é o que vende mais, tanto faz, sou eu também

Arriada né, sempre que escuto algo passando essa ideia eu já boto muita fé.

E não tem como né meu, usguri representam demais no trampo. Lembrou aquela visão do Djonga em LADRÃO:

Pois construí um castelo vindo dos destroços
Resumindo, eu tiro onda porque eu posso

Temos o primeiro feat desse álbum, da Lallô, que pra falar a real só fui saber dela por culpa desse som, achei um canal de covers no youtube e só. Canta bem, agregou no som, curti.

IPHONE ocupa a quinta faixa e com ela temos aquela lovesong de praxe, pra mostrar que o coração dusguri ainda bate quentinho. Refrãozinho gostoso. O corre das notas, a vida de artista, as expectativas dum relacionamento, aliás, até o que citei antes neste texto sobre a emancipação através do dinheiro, etapa final no processo de identificação do indivíduo como um adulto de fato.

Enfim, baita som também, homens botando a cara pra dizer como se sentem, assumindo suas fragilidades sempre será válido. Louco né, me pego pensando como isso devia ser algo resolvido há muito tempo. Pro óbvio virar o novo normal será preciso reforçá-lo todos os dias.

Em 6º temos CONFIO e bah esse som aqui é pra explodir os graves, na moral, digno daquele mosh, daquela centrífuga que rola nos shows. Também temos um ótimo feat da Ebony (que tá voando por sinal), é as bandida não adianta, flow afiado no maior pique Cardi B.

Sonora de autopromoção, na clássica estética do rap de “o pai é brabo e através dessas linhas aqui eu vou sustentar essa pagada”. Aliás, sempre bom lembrar, a pagadinha só é válida quando pode ser sustentada, caso contrário tu tá fazendo papel de otário.

O clipe também merece a sua moral porque ele encaixa direitinho com a vibe da música.

O som começa com um estrondoso FAZEM 10 GRAUS EM BH e quando vê tu já tá ali balançando a cabeça com os fones VIBRANDO com o grave no talo.

Bah pai vai tu tifude.

Enfim, quero destacar um verso antes de passar pra próxima

Os boy critica, mas num sabe de onde vem
Toda essa mídia e essa marra que nós tem
Então pensa bem, então pensa bem
Nós passa a visão, afinal
Quem gosta de crime é jornal
Nós gosta é da nota de 100

Infelizmente o processo de popularização através das mídias convencionais é limitador, embranquecedor e repressor. Consequentemente, como todas as nossas instituições, centradas em cima da verdade unilateral branca, mascaradas atrás do conceito da tão deturpada “democracia”.

Quantos manos foram salvos pelo som que cê diz ser de bandido? Quanto tempo mais de “higienização” da arte até as pessoas aprenderem a reconhecer o valor da periferia?

A linha sobre quem gosta de crime é jornal me lembrou aquele verso magnífico do Bk’ em Regras da Loja, som em que é descrito o planejamento pra um assalto:

A caminho do assalto
Noto um mano meio desconfortável
Disse que o dia não ‘tá favorável
Quem foi que trouxe esse novato? (Quem trouxe?)
Era um primo do piloto
Que tinha perdido o emprego há pouco
‘Tava pra nascer o filho mais novo
Desviado da igreja, louvor!
Seu desespero me fez refletir
O porquê de eu estar aqui

Foda né? Foda demais.

7ª música atende pela alcunha de THC e aí eu te pergunto meu caro, qual que vai ser do rolê? (nada de rolê gurizada, fiquem em casa pelo amor de deus, mais do que nunca precisamos olhar por nós e aqueles que amamos).

O teto do som é a curtição, trajar o kit mais brabo, os veneno na bag, lançar o passinho com a nega véia. Aquele momento hedônico que todos ansiamos nas oportunidades de folga. 

Michelle, vem, joga pra mim
Duas bala no litro de vinho
No baile nós torra o verdin’
Lançando nós dois o passin’

Duas bala no litro de vinho é pra largar os boneco com bruxismo no baile SKOPAKSOPAKSAPOS.

Também temos um feat incrível (pra variar) do Luccas Carlos, nosso R&B flow que chega preciso no tom, na sonoridade e na onda gasta. Essa faixa é uma das minhas favoritas do álbum, escuto direto.

$ENHOR é o nome da oitava faixa e bah mano o que que eu vou te dizer tá ligado? (GO CHEGOU COM O BEAT AHN) Esse som é construído em cima de uma das analogias mais incríveis que ouvi nos últimos tempos. A ideia aqui é discorrer sobre a relevância do dinheiro a partir de uma perspectiva de realização pessoal e como o mesmo facilitaria tantas coisas em sua vida ao mesmo tempo que narra os problemas para obtê-lo.

Porém isso é metaforicamente representado, dá pra fazer paralelos com a figura paterna e até mesmo a figura de deus.

L7nnon e BK’ acompanham FBC nessa faixa e puta que me pariu, simplesmente todo mundo amassou, esse som é facilmente top 3 do álbum e bem, vamos pras linhas:

Quando eu era mais jovem, você fez falta, hein
Pra te conquistar, eu me joguei alto, hein
Fiz famílias sem você, mas agora com você
Me arrependo se já confiei em alguém
O meu sonho era te ter aqui
Pra nunca ter sofrido o que eu sofri
Agora que eu te tenho aqui, vou manter para ser assim
Mas foda é confessar que você fez falta, hein

Iniciando com o refrão já fica evidente o que falei, aliás, me lembra um verso do remix de Beira de Piscina por Don L:

Sonhos são caros e sem prazo
É um investimento alto

Dinheiro é uma das invenções mais controversas da humanidade, catalisando a violência através do conceito da dívida, se tornando uma ferramenta primordial no exercício da escravidão e dominação, inclusive, vivemos na era dourada do globalismo, aonde suas implicações se tornam cada vez mais complexas ao mesmo tempo que seus desdobramentos se tornam mais sutis e enraizados. Não é de hoje que a ganância comanda o planeta.

Pude te conquistar e assim pude perceber
Que o que você faz por mim não vale o que eu fiz por você
Vi por você alguns amigos mudarem
Nesse corre quanto deles morrerem
Eu não te amo, mas te quero, ‘cê sabe
Que te valorizo mais que ‘ocê vale

O sistema nos obriga a engolir uma tonelada de merda pra conseguir o sustento e na maioria das vezes o tempo gasto não vale o retorno que temos, bem, Marx já dissecou sobre a exploração da classe trabalhadora através da mais-valia.

L7 chega afiado também, com seu flow ímpar, só de ouvir a voz dele tu já entende que ele carrega toda a malandagrem do rj. Pena que né, ultimamente só tem lançado som mela cueca. Enfim, canetada dele representou.

Eu e a molecada da rua ouvindo Racionais
Mas naquele tempo nós nem se chamava de cria
Lembra daquela “Eu tô ouvindo alguém me chamar”?
Eu sempre quis ser o que chamava e distribuía

O som em questão é Tô Ouvindo Alguém Me Chamar, mais especificamente essa parte:

Tinha um maluco lá na rua de trás
Que tava com moral até demais
Ladrão, ladrão, e dos bons
Especialista em invadir mansão
Comprava brinquedo a reveria
Chamava a molecada e distribuía

Citando um dos maiores sons de um dos maiores álbuns da história, L7 passa uma ideia nostálgica de quando Racionais tocava nas rádios, época de outras gírias porém a ideia de grana e a vontade de prover já eram presentes.

Rapaziada se envolvia, era por tua causa
Várias amizade acabaram por tua causa
Familiares não se falam por tua causa
Se dinheiro não é o mal do século, é uma das causas (É mermo)

Sinceramente, tá pra surgir algo que causará mais discórdia na humanidade do que dinheiro, uma das raízes de todo o mal por assim dizer. Quem aí não conhece ao menos uma ladaia que surgiu por causa dele?

Eu tô lendo um livro chamado Dívida – Os Primeiros 5000 Anos, escrito por David Graeber, antropólogo ecônomico, ativista anarquista e professor na Universidade de Londres. Basicamente ele discorre sobre a origem do dinheiro, a influência na violência, dominação através da escravidão e mais uma porrada de sujeira. Fica aí a recomendação.

Seguindo para o penúltimo som temos SE EU NÃO TE CANTAR, sonoridade dessa tá puxada pro R&B, aquela blom blom crocante do baixo, boombap na batida, som simplesmente DELICIOSO. Uma das faixas mais conhecidas do álbum, ao lado de $ENHOR e não, ele não está falando de um relacionamento amoroso mas sim sobre música. Isso mesmo, uma música sobre música, metamúsica.

Lallô também mete um backvocal suavinho, daquele que o cara fecha os olhos e mete um sorrisinho ao cantar.

Pra onde que todos lugares e bares e praças
Viadutos e ruas levavam a você, me levavam a você
Eu estava em tudo que é luta de classe e de causa
O incrível é que em todas eu via você, eu via você

A música é uma linguagem universal, atemporal e, segundo FBC, onipresente. Como se tivesse nascido pra isso, seu eu lírico é personificado atráves dessa música que busca traduzir um pouco da sua relação com a mesma.

E você vai dizer que tudo que eu faço e digo
É pensando em mim, pensando em mim
Quase que eu fui além de machista e arrogante
Em pensar que ao menos você precisasse de mim, quem precisa de mim?

Bom, falocentrismo nos cerca há sei lá eu quanto tempo, não é novidade pra ninguém, homens são criados em volta da ideia de que as coisas necessariamente giram em torno deles. Enfim, finalmente esse assunto e suas implicações estão ganhando espaço e aqui eu cito o Caio César e seu trabalho em prol da desconstrução e autoquestionamento.

Na finaleira temos ODE À TRISTEZA e como o próprio nome sugere, é um som melancólico, destoando de todo resto da obra. A ideia aqui é retratar o lado positivo da tristeza, servindo até mesmo como uma ferramenta de inspiração e aprendizado. Perspectiva curiosa, visto que não conheço muitos sons que puxam pra esse lado.

Vou falar procês, lembrou um verso do 50 Cent em Many Men:

Sunny days wouldn’t be special, if it wasn’t for rain
Joy wouldn’t feel so good, if it wasn’t for pain
Death gotta be easy, ‘cause life is hard

Certamente a alegria não seria o que é sem a sua contraparte.

FBC demonstra um outro lado, uma outra faceta se preferir, em relação ao seu álbum anterior. Tendo condições que outrora seriam impossíveis temos aqui um álbum conciso na sua proposta intimista e sentimental, fiel ao conceito de sua gênese. Também considero um bom ponto de partida pra quem não conhece o trabalho dele.

Bom, por hoje acho que é isso, fazia uma cota que não sentava pra falar um pouquinho sobre álbuns, tô feliz de ter voltado. Agradeço quem leu até o final, talvez tenha me estendido um pouquinho mas a gente vai lapidando a escrita com o tempo não é mesmo?

No mais, o álbum tá disponível nas plataformas digitais e gratuitamente upado no youtube, pra ouvir é só querer.

Beijo no coração de vocês, lavem as mãos e até logo.

Publicado por William Sandino

Alguém que adora dar pitacos sobre o que acha que entende

Um comentário em “Análise PADRIM - FBC

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