Cainan Xavier – Crescendo como DJ e mantendo a LOVA de verdade

Domingo, às 19:30, aconteceu a primeira entrevista da história da Próxima Ideia. Meu entrevistado não foi um dilema, tendo em vista que qualquer introdução significa a única e marcante primeira impressão de ti, sobre nós. Qual é a essência da revista? O que o coletivo quer? Essas perguntas precisam ser respondidas antes de qualquer palavra proferida a um entrevistado, porque definem quem vai estar na nossa frente. E o Cainan é o match perfeito para a primeira entrevista do projeto.

DJ open format, especializado em hip-hop, criador e produtor da LOVA – mais que uma festa, uma experiência de hip-hop em Porto Alegre – nos encontramos virtualmente. Foi a maior proximidade que poderíamos ter, devido à nossa distância e à pandemia. Em um misto de risadas, seriedade e sinceridade bruta, a entrevista de 10 perguntas, que durou cerca de 1h, pareceu ter durado segundos. Vamos entender melhor quem é o Cainan Xavier, DJ e produtor cultural de Alvorada, RS?

Foto: Enrique Salgado

1 – “Como foi esse caos de pandemia, pra ti? Como foram os primeiros meses longe das festas?”

“Lembro de um momento, bem antes da quarentena, que parei de tocar por falta de trabalho e fiquei muito triste. Semanas que passei o dia inteiro na cama, sem vontade de fazer nada… e acredito que isso tenha me preparado, indiretamente, pra esse momento. Nos primeiros meses de isolamento, não estava tão mal. Tentei partir do ponto de vista que (a quarentena) estava acontecendo com todo o mundo. Tive que olhar por outro lado pra não me desesperar, não surtar.”

“Acabei fazendo uns trabalhos como freelancer de produção audiovisual. Ganhando menos, mas colaborando com alguns projetos e não pensando só no meu nariz. No fim, a gente precisa ter a consciência que existe a pandemia. Rolou muita festa clandestina, tinha muita gente fazendo. As famosas festinhas “só” com 300 pessoas (risos)… mas por aqui, tô com a consciência limpa.

2 – “E o que tu tem feito hoje? Quais são as produções que tu tá participando? Quem tá do teu lado?”

“Nos primeiros meses, que eu fiquei parado, sabia que tinha que aparecer, mas não sabia como. Em março, entrei numa agência, Moving Management. Ela agencia vários DJ’s muito fodas da cena, com 20, 25 anos de experiência. Aí, de repente, eu vi o Lê Araújo (DJ) fazendo live todos os dias, e começou a surgir trabalho pra ele, porque ele tava fazendo live todo o santo dia!”

Aí que caiu a ficha do que eu ia fazer, e surgiu a minha live “Samba de Quarta” (todas as quartas, no Instagram @djcainanxavier). Pensei em uma alusão aos sambas de quarta-feira que estavam rolando no Cheiki, antes da pandemia. 2 semanas depois, surgiu a live “Sextou da Melhor Forma”, semanalmente, com 3h30 de duração. Fora todo o movimento de estar mais ativo nas redes sociais, postando vídeos e outros conteúdos.”

“Também tenho um canal no YouTube, o “Every Stupid Thing”. Tentei dar uma repensada, voltar com ele, mas não estava dando resultado. O Instagram deu mais retorno pra mim, do que o YouTube. Pensei até em criar um perfil pro canal, mas não ia dar conta de tudo. Não adianta querer atropelar tudo e não conseguir se dedicar como deveria nos projetos principais. Decidi focar na marca Cainan Xavier.

3 – Agora que entendemos o momento em que caiu a ficha das lives como DJ, qual foi o maior desafio de criar conteúdo de forma remota? Esse corre foi mais fácil ou mais difícil, pra ti?

“O mais difícil é ter que criar em casa. É muito desafiador criar conteúdo sem ter outros lugares além do quarto e da cozinha. Tem que ser criativo. Antes eu tinha a opção de ir pra festa, me filmar chegando na festa, no Uber… mas quando o cara tá só em casa, vai fazer o quê? Preciso criar conteúdo para ajudar na divulgação das lives.”

Pra inspiração, tenho visto bastante coisa do TikTok (risos)… dá muito insight engraçado. Tem uma Tiktoker sensacional, a HoneyB, que peguei inspiração dela pra criar um story como se tivesse numa festa online, e integrei com a live. Tem uma coisa ou outra do Instagram do pessoal que produz, e produtores que eu já conheço, que consigo me basear bastante pra criar meu próprio conteúdo.“

Foto: Alexandre Medeiros

4 – Tu é um DJ e um produtor cultural com a LOVA. São áreas muito próximas, mas exigem atenções e aspirações diferentes. Qual delas é teu carro-chefe? Em qual tu foca mais? Qual dá mais trabalho?

“Meu foco é mais em ser DJ, com certeza. É um lance que já tem anos! Comecei a tocar em 2011, já tem um tempinho dedicado, então não posso errar. O único passo pra trás é pra pegar impulso.”

Porém, produzir é mais difícil. Principalmente a LOVA, porque quis botar 100% da minha identidade nela. As primeiras artes, textos que fiz foram pra LOVA, então ficou 100% eu. Algumas coisas não eram tão… “certas”, mas foram originais. No som também, faço questão de fazer o maior set, com 3h no mínimo, dividido ou tocando direto. Curadoria musical é essencial! Tu pode fazer a parada num porão, mas a música tem que ser boa. E o pessoal vai à loucura.

5 – Tu nos falou o ano de início da tua trajetória… como tu começou na cena? Quando foi o teu primeiro contato com eventos? Tua família te deu apoio desde o começo, como é a relação com eles nesse sentido?

Eu tinha 18 pra 19 quando fiz a primeira festa, que foi o chá de bebê da minha irmã (risos)! Tinha os familiares, umas 15 pessoas, uma controladora e umas caias de som. Ela ia contratar um DJ, mas como estávamos sem grana, decidimos colocar o som nós mesmos… e eu fiquei a festa toda comandando! A Laura (amiga da irmã) me viu tocando e perguntou se eu queria tocar em outra festa.”

“Sabe a reação de quem não sabia nem o que cobrar!? Falei “posso fazer”… era aniversário do filho de 1 ano dela, e aí foi uma bola de neve, fui fazendo festa afu. Fiz o curso (de DJ) na AIMEC em agosto de 2011, em 2013 fiz produção musical e defini que eu ia seguir fazendo aquilo pra vida.”

“Lembro até hoje do dia que eu senti que queria ser DJ pra vida. Foi numa festa que fiz com amigos, chamada Açorianos. Toquei das 20h às 5h. Pra quem não é profissional e não tá acostumado, isso é MUITO tempo. E a pista sempre bombando. Pensei “cara, é isso”. Claro, demorei pra me concretizar na cena, mas não fazia mais sentido, pra mim, seguir carreira na publicidade e trabalhar em agência (Cainan estudou Publicidade e Propaganda na UniRitter).

6 – Como produtor cultural, como tu entende a importância de dar voz pros artistas locais, principalmente artistas pretos, como é na LOVA? Além dos DJ’s, é um dos poucos palcos em POA que dá voz pra rappers da região, tu te sentes parte importante dessa missão?

“Mano, sim. Eu comecei a me envolver na cultura hip-hop em 2010, quando comecei a ir nas batalhas. Meus amigos Joca, Madyer, Ariel, iam nesses picos e eu comecei a curtir, me envolver, e oferecer minha ajuda. As mais significantes foram como fotógrafo, em duas edições de aniversário da Batalha do Mercado, que foram pra página da Lado Sul Hip-Hop (selo e coletivo de Porto Alegre).”

Quando lancei a LOVA, foi quando realmente tive o poder de dar uma ajuda significante pra cena. Qualquer coisa que tu fizer e que vá ajudar a cena a crescer é válido. Chamar as pessoas pra tocar. Na LOVA, eu nunca pensei em lucro. Nunca foi “vou fazer uma festa, vou bombar, vou ganhar grana pra caralho”. Nunca foi isso. Ver a pessoa curtindo o show do artista, o artista curtindo o show que tá fazendo… esse é o meu lucro.”

Foto: Cainan Xavier

7.1 – Tu é um cara que adora trabalhar com públicos diferentes, mas quando se trata da LOVA, manter a identidade dela é essencial pra ti. Qual é tua filosofia por trás disso? É algo que o público também cobra?

“Antes de fazer minha festa, toquei em outras festas de RAP, de música preta. Algumas iam pra um lado (mantinham a identidade), e outras iam pra outro. Quero sempre que a LOVA seja algo original, mas se tu não gosta de alguma festa por isso ou aquilo, é só ir pra outra!”

Faço uma festa focada realmente em quem realmente gosta da música e da cultura preta. Muita gente vem pra festa de trap e logo-logo pergunta: “mas quando começa o funk?” Quis manter a identidade da LOVA, e isso vai manter as pessoas que querem ir pela música e pela cultura, não só pelo close. É pelo close também (risos), mas não é só isso. É curtir a música, curtir o momento e, principalmente, curtir a LOVA”

“É revolucionário ver o pessoal preto falando da LOVA como uma festa preta. É um negócio que eu fiz e lutei muito pra fazer, e ver as pessoas compartilhando, sabendo dos corres que tu fez… é incrível. Mas não recomendo fazer festas sozinho! (risos) Se sobrecarregar não é legal… ainda bem que eu tinha meus amigos pra abraçar a festa, os betas… todo o mundo.”

7.2 – No geral, como tu enxerga produções que tentam demais agradar todos os públicos e acabam perdendo sua identidade? E como conciliar com a verdade de que pessoas de todas as tribos, ao mesmo tempo, são muito bem-vindas e recepcionadas ao ir na LOVA pra ter aquela experiência?

“Eu acredito que a imagem da LOVA, o conjunto de imagens das páginas, dá bastante referência pras pessoas. Bastante foto de gente preta, que é a ideia pra chamar o povo preto! É algo que não existe numa festa elitizada, por exemplo.

“Quando vi que tava rolando uma mistura, comecei a revezar as fotos, pra não ficar a impressão de que eu não posto nenhuma foto com pessoas brancas. Mas claro, sempre dando uma atenção maior pro público preto, porque é um espaço essencial pra nós. Ao mesmo tempo, não compactuo muito com as críticas pras “festas de branco”. Tipo… cara, é uma festa! Mas cada uma tem uma identidade diferente. (risos)”

“Espero que a festa continue sendo maravilhosa, e que eu consiga continuar fazendo tudo de forma mais planejada. Muitas das 14 edições de LOVA rolaram no impulso, mas um evento é algo que precisa ser pensado. Porém, como um amigo meu diz: “é melhor feito do que perfeito”. Então é melhor fazer, do que esperar ficar perfeito e nunca lançar.”

Foto: Alexandre Medeiros

8 – Quais são outros produtores que tu trabalhou e curtiu o trabalho? De qual produção que tu já participou tu sente mais falta? Quem são os teus manos e minas que te inspiram mais, e por quê?

“Acho que eu sempre vou falar do Gui e do Hélder, da DT (festa de hip-hop da Cucko). Comecei a tocar rap lá, 2 anos e meio tocando em todas as festas. Se tinha DT, era eu tocando. Foi uma base super massa, uma experiência que me abriu várias outras oportunidades. Já toquei com Raffa Moreira, Baco, abri show do KL Jay…

“De outros produtores, o João da Hatz. Já trabalhamos juntos, e o cara tá sempre fazendo um corre massa. A LOVA ia, inclusive, trabalhar com a Hatz (em dezembro de 2019), mas como tinha feito a edição especial de aniversário, gastei afu, tive um pequeno prejuízo e não pude participar, porque não poderia arriscar. Tive que pagar as pessoas!”

9 – Muitas vezes, encontramos dificuldades na nossa produção, principalmente em uma cidade que não olha com tanto carinho pra cena independente. Um exemplo são aparelhagens de menor qualidade, com as melhores sendo reservadas apenas pra uma parcela muito pequena de eventos. Como tu supera essas adversidades pra entregar a melhor produção pro teu público? Ou seja, quais são as tuas prioridades de orçamento na hora de fazer um evento?

“Vou começar pela última pergunta: não pode faltar a música! (risos) Então, sempre costumo colocar alguém que já tenha visto tocar, e confio no trabalho. Mas, infelizmente, também já passou um pessoal pela LOVA que não foi profissional, como eu gostaria que tivesse sido.”

“Com relação aos equipamentos (das casas de festas), são bem precários. Já tive que emprestar o PC e a controladora, porque a pessoa não tinha esse material, e não tinha nem mix no lugar! São coisas caras, as casas noturnas deveriam colocar um kit básico, pelo menos pra podermos tocar direitinho, botar o pen drive, fazer as mixagens… mas como eu já tô há um tempinho, eu já tenho esse material. Tenho como tocar, independente do lugar. Mas pra outras pessoas, principalmente iniciantes, infelizmente é complicado.”

10 – Alguma dica pra gurizada que quer começar a ser DJ ou produtor cultural, e não sabe por onde?

“Pra mim, o essencial pra quem tá começando é o Networking. Falar com as pessoas que já tem tempo, experiência… antes mesmo de ver técnica, etc, é conhecer. Vê se é aquilo mesmo que tu quer! Não é só diversão, não é pra se aparecer, e quando vê não é pra ti. Acontece muito. Já tive pessoas que me procuraram pra querer dicas e de repente desistiram… acontece.”

“O mais importante é buscar saber o que tu quer fazer, e buscar o networking. Ir nas festas, ver como os DJs tocam, o que é legal fazer, o que não é… treinar as mixagens, conhecer tuas tracks, ouvir muita música. Uma hora ou outra, tu vai conseguir uma oportunidade. O que não dá, é treinar a semana toda, mas ninguém nunca ter te visto. Conversar com a gurizada, ganhar confiança, e é isso aí!”

“Toco há 9 anos. Não é tanto tempo, mas só agora consegui chegar num nível “aceitável” pra mim. Ainda pretendo conseguir muitas outras coisas, mas só me sinto satisfeito agora. Antes, me sentia meio frustrado, sem receber todo o conhecimento que gostaria. Mas com persistência e resistência, a gente chega lá.”

Sigam o Cainan no Instagram pra curtir as lives de quarta e sexta à noite! @djcainanxavier

E sigam a LOVA pra ficar ligado quando ela voltar! @lovaforthemusic

Foto: Cainan Xavier

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