Moda é fenômeno social constante para além da roupa

Eu nunca assisti um desfile por completo. Nunca tinha ouvido falar em Versace, street style ou mom jeans pelo menos até meus 16 anos. Comecei a me dedicar mais em me vestir bem quando saí do ensino médio e assumi meu cabelo crespo. Ali foi o start pra muita coisa.

Morei no interior durante minha infância e quando ingressei no ensino fundamental, fui tomada pela cultura pop, apesar do r&b vibes permear minha vida já que cresci ouvindo esse estilo; não tinha noção nem controle sobre minhas vestimentas ou gostos mas sentia que ainda não tinha me encontrado.

Passei a ter a consciência de um dos empregos cotidianos da moda através do espaço que mantém o maior acesso público: o shopping. Acesso não pelo ato da compra mas sim da apreciação através da vitrine.

Roupas caras que num primeiro momento não justificavam seu valor pois aparentemente não representavam nada – na minha cabeça-; quando me dei conta, pude aprender a primeira lição: roupa representa status, classe social e até mesmo posicionamento político.

Não é à toa que na Idade Média, tecidos como a seda eram exclusivamente destinados aos nobres e ricos e quanto mais decoradas, bordadas e cravejadas de pedrarias, maior era o prestígio e o poder aquisitivo. Ou no período da escravidão, onde os negros alforriados compravam calçados para se diferenciar dos negros escravos. Entende?

Durante o início da juventude comecei a ouvir muito rap nacional; dali pra frente finalmente senti que fui de encontro a algo que estava a minha espera desde pequena quando ouvia Usher no Kadette cor vinho do meu ex padrasto ou quando meus colegas na 6a série cantavam Vida Loka part.1. As roupas, o estilo de vida, as ideias e princípios, e como diz KRS-ONE em “9 Elements”: “Rap is something you do, hip hop is something you live”.

A glamourização e a alta costura entraram na minha vida muito depois, principalmente por eu conseguir emprego em uma loja de roupas, e ainda estão em processo de adaptação, aprendizagem, porque realmente não é algo que eu me sinto 100% confortável em falar, muito menos estudar academicamente. Talvez pelo fato de ser algo distante da minha realidade e dos meus, mas principalmente pelo fato de existir muitas questões por detrás dessa área. E é dessa forma que pretendo abordar ela aqui.

Hoje percebo que a moda esteve presente desde sempre não só na minha vida mas também no contexto geral: a estética dos “bondes” que se apresentavam com suas danças coreografadas em cima do funk na escola, piercing na sobrancelha, cabelo descolorido e correntes de prata; o anseio de ter um uniforme igual a galera do RBD; passando pelo consumo assumido do fast fashion; o momento em que comprei o meu primeiro Adidas com o salário do meu primeiro emprego e hoje consegui comprar o primeiro Nike da minha irmã. Tudo isso pode parecer bobagem para alguns, assim como pode despertar a consciência das simbologias, do comportamento, da expressão e do impacto que tudo isso causou na nossa vida.

O intuito aqui é aproximar a glamourização mas também desconstruir essa ideia que coloca a moda como futilidade, movimento passageiro burguês e unicamente feminino. A consciência de que moda é um fenômeno social presente nos menores detalhes precisa ser estabelecida. Definitivamente trazer esse despertar. A imagem, a estética, a expressão, a atitude… Ela existe muito antes de eu ou tu nascermos e vai permanecer depois que partirmos até porque, assim como história, estamos fazendo moda a todo momento.

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