Análise Roteiro para Aïnouz, Vol. 3 — Don L

Às vezes a vida te lança umas coincidências curiosas, segunda feira é meu dia de Lançar A+ Braba de Poa & Região e hoje é o dia que marca exatos 2 anos do show desse álbum no Agulha. Nem preciso dizer que foi um puta rolê, os shows lá são diferenciados, realmente esse lugar torna tudo melhor.

Gabriel Linhares da Rocha, o último bom malandro, mais conhecido pelo seu vulgo, é outro da nobre safra nordestina que veio te passar a visão e invadir sua mente.

Mais uma vez eu gostaria de começar pela capa, que é um ode ao cineasta brasileiro Karim Aïnouz (Dirigiu filmes como Madame Satã, Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo, A Vida Invisível), proveniente de Fortaleza — CE, assim como Don. Karim é descendente de argelianos e por isso a escolha da escrita árabe para estampar na capa.

O semblante reflexivo, profundo e melancólico enquanto a água (do que parece uma baita ducha, diga-se de passagem) escorre pelo seu corpo durante um momento íntimo de introspecção, que ocorre conforme cada respiração completada, acaba por envelopar o tom autobiográfico deste EP, lançado em 27/06/17 que foi produzido nomes como Deryck Cabrera, DJ Caique, Luis Café, Santss e o próprio Don L.

É uma trilogia em ordem inversa. Você tem que sentir o que eu tô dizendo quando eu rimo o que eu rimo tem que ver o que eu vi quando eu vi o que eu vejo, quando eu rimo sobre o que eu vi, saca? E ir além disso. E sentir aquele contexto. E pensar sobre seu lugar no mundo e sua busca. Se eu não puder passar esse sentimento vai ser só mais uma história entre milhares.

Essa colocação dele passa a fazer sentido depois que damos uma chance pra esse flow ímpar, sério, a maneira que ele canta é absurda, te conduz por um turbilhão de sensações, te guia através dos anos de experiências que foram condensadas em forma de rap e no final te deixa com o questionamento de “como esse cara fez isso?!”.

Abrindo o EP temos Eu Não Te Amo com a participação de Diomedes Chinaski e cara essa música se trata sobre a relação de Don com a atual cena da música brasileira, principalmente do rap (Que convenhamos né, o mainstream tem tangido cada vez mais a superficialidade e sobre isso eu gostaria de deixar este vídeo do Quadro em Branco). Particularmente não acho que esse seja um som pra se promover, tipo nuns tetos de “eu sou um ponto fora da curva e o resto tá correndo pra ficar na média” mas sim de chamar a nossa atenção pros trabalhos que estão aí nas ruas e consequentemente ganhando os holofotes ao mesmo tempo que não acrescentam em nada (lembrando que a ideia não é dizer que esse tipo de som não merece espaço mas sim reforçar as raízes do rap e as bandeiras que o movimento levanta).

Todo mundo é Escobar, agora, ou um Tony
Ninguém quer ser Beira-Mar ou espirrar o sangue
Na sua camisa Gucci, fake Don Corleone
É, então ‘cê quer ser o gangsta rap
Posando com seu skunk em snaps?
Porque maconha é muito gangsta, né?
Todo mundo é rockstar
Quando chegam os flashes

Logo no começo do som, ele cita os dois criminosos mais romantizados do mundo do rap (sério, perdi as contas de quantas analogias a Pablo Escobar e Tony Montana eu ouvi nessa vida) ao mesmo tempo que questiona essa mesma romantização junto com o suposto status de guri ruim que fumar maconha passa, tipo “vai passar essa pagadinha de chefe do crime no crédito ou no débito heinnn?”

E eu deixei o nordeste
Há dois anos, com uma sede de secar a Sabesp
Sem chapéu de palha, nada clichê e velho
Eu vim pra tomar o jogo
Não pra ser um boneco exótico
E forjar um sotaque meio robótico

Seguindo no verso, temos a afirmação do compromisso de Don em seguir seu sonho, dizendo que migrou de sua terra natal com uma sede tão grande que secaria a Sabesp (que é o órgão responsável pela gestão hídrica em SP) e ressaltando de que não vai se moldar aos padrões da indústria da música ou mesmo representar o esteriótipo caricato de nordestinos para poder vender mais.

Com um papo Buda, zen
Pra sugar bem
Pagar cinquenta ao bamba, rei do samba
Se é MPBoy, a grana vem
Igual passarinhos voando

Mais pro final desse trecho que isolei vem um crítica subjetiva novamente direcionada para a indústria da música, ele faz referência a dois mestres incontestáveis do rap (Criolo e Emicida) mostrando que esses artistas só ganharam o reconhecimento da mídia geral e acesso ao mainstream após seus trabalhos mais recentes, cabe aqui dizer do Convoque Seu Buda, Espiral de Ilusão e até mesmo a turnê que ele fez com a Ivete pela Nivea (do tributo ao Tim Maia) & a música Passarinhos que trouxe todos os holofotes da mídia pro Emicida. Ressaltando novamente, a crítica aqui não é o trabalho que eles lançaram, até porque se o mainstream fosse mais como esses dois teríamos muito menos do que reclamar na cena atual, ambos possuem trabalhos impecáveis antes de estourarem (sério, procurem a discografia desses dois) e é justamente esta a indignação retratada pelo Seu Xapa.

Ainda nesse som eu consegui pescar mais essa referência:

E se resistirão os sonhos
Quando a adrenalina, como em um acidente
For o suficiente pra aniquilar a dor

O primeiro trampo solo do Don foi Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L e durante seu processo criativo o rapper sofreu um acidente de moto no qual quebrou 3 costelas e a clavícula (ainda teve que ficar 6 meses sem andar). Mergulhado num mundo de dor e frustração, Don percebeu que a adrenalina do acidente foi de suma importância para catalisar seus sonhos e aspirações, forte o suficiente pra aniquilar a dor física e sentimental que ele sentia.

Último verso fica por conta do Diomedes, que fecha o som com:

Amigos viraram números
Amigos viraram números
Amigos viraram números
Jogando o jogo do Diablo
Após o triunfo, só túmulos
Descansem em paz, Digão e Pablo
Isso não é Netflix (não, não)
Maldito jogo macabro
Sem sobretudos e ternos chiques
Esse vazio dói e a falta de tudo afeta a fé
Vendido no Egito que nem José
Meu baby, vou trazer dez mil pra nós
Mas me diz o que são dez mil pra nós
Dez mil tu nem compra um carro
Dez mil tu investe num Palio

Temos uma linha repetida diversas vezes e ao meu ver ela está ali com um duplo sentido e ambos são negativos. O primeiro seria a crítica para a sociedade, na qual “amigos viraram números nas redes sociais” o que já é assunto suficiente pra um texto somente com essa afirmação. O segundo seria associado aos amigos terem “virado estatística”, Diomedes já vem dizendo sobre perder amigos desde cedo em diversos sons e creio que essa linha de raciocínio encaixa perfeitamente, ainda mais que ele conclui essa ideia com “jogando o jogo do Diablo” fazendo um jogo de palavras com o jogo de action-RPG Diablo e a palavra Diabo, que neste caso seria a representação da criminalidade aonde seus amigos teriam “jogado” e terminado apenas como números… Foda.

Por último, gostaria de destacar a linha “Vendido no Egito que nem José”,  segundo o primeiro livro da Bíblia, Gênesis, José foi trocado pelos seus irmãos por moedas de prata sem o conhecimento do seu pai, Jacó. Dá pra traçar um baita paralelo com a situação volátil dos MCs perante as gravadoras e a indústria da música.

Dando sequência temos Fazia Sentido com a participação de Terra Preta e mano, esse som é um teto fodido gurizada, ele constrói um sentimento de indignação em ti, tipo Don L começa lá de cantinho mostrando porque ele tá aonde tá, dando continuidade com as críticas para o rap game e a indústria da música, lanchando todo mundo com suas metáforas, citando grandes nomes da música e questionando o status quo. Tudo isso cadenciado por um beat épico com tambores, tudo muito vivo, pulsante, revoltante e intenso. O som já abre debochado com:

Eu tô nesse jogo por um bom tempo
E eu nem gravei um disco
Eu lembro do Caetano me entregar um prêmio
De melhor do nordeste
O que diz sobre isso?
Porque não tinha uma categoria pro sul
Então, era tipo
Esmola pra segunda divisão, tru
Mas eu nunca comi partido

Na moralzinha, esse início já é digno de se cantar com ele dedo médio levantado, metendo aquela ginga chave™. Sobre o disco que ele citou, o outro trampo é uma mixtape, cujo processão de criação difere de um álbum completo ou mesmo de um EP. Aí logo após já vem a primeira paulada desse som, os prêmios que o Don ganhou enquanto membro do Costa a Costa, entregue pelo mestre Caetano em pessoa, porém logo após ele já questiona o fato do nordeste precisar de uma categoria própria e não pertencer a categoria geral, como todas as outras regiões do país (exceto o Norte/Nordeste), sendo assim uma “segunda divisão” da música. Por último, a expressão “nunca comi partido” é uma expressão cearense que significa não tomar as dores, mostrando que ao mesmo tempo ele não deixou se abalar por toda essa palhaçada mascarada.

Fazendo o meu movimento
Na esquina com os meus
Vendendo minha mix, chapa
Tentando viver o momento
Com o que a vida me deu
Desenhando em papel amassado

Após pesquisar por algumas entrevistas do Don descobri que ele começou a divulgar seu trabalho por conta própria nas ruas, literalmente nas esquinas, lembro dele dizer que um rolê deles pra espalhar a palavra era botar seu próprio som num carro estacionado aonde tivesse uma gurizada pelas ruas de Fortaleza e lidar conforme a reação do público. Destaque também pra metáfora de desenhar em papel amassado pra retratar as dificuldades de ser rapper e nordestino.

Ah, eu sou meio old school nisso
No tempo que a música fazia sentido
E não que fosse tudo bom, primo
Mentira já vendia, mas fazia sentido
Os Bonadio lixo: fazia sentido
Os rocks de condomínio: fazia sentido
Mas se você dizia que metia umas rimas
Alguém respeitaria se fazia sentido?

Seguindo na ponte da música, ele já chega cutucando a ferida num tom até saudosista, eu diria, de que o status quo da música fazia sentido, inclusive o que era considerado merda (vide citar o infame produtor musical Rick Bonadio & os rocks de condomínio que tomaram conta do Brasil durante a primeira década do terceiro milênio).

Agora, qualquer bandinha de reggae é o rap
Como se o Armandinho viesse Super Cat, ou pudesse
O Cine ser emo boom bap
Ou o NX fosse noção zero
E quisesse ter um Eminem sem uma D12
Pros nerd youtuber achar que essa porra é muito bom rap
E o Mussoumano fosse um Luciano Huck
Tentando fazer um rap de moleque
Mas antes disso
Antes da Lavigne pensar em gadulizar uns MCs
Antes do Rincon ter um hit, e receber uma geladeira Rick
Antes dos ProEmishid ouvirem a minha mix
E sacarem um outro caminho
Eu tava nas’área

Bah, aqui ele só cospe uma tonelada de referências que eu vou tentar resumir como um retrato da mediocridade do público, que ao se tornarem menos críticos acabam por considerar qualquer conteúdo como se fosse rap.

Super Cat é um DJ/Cantor jamaicano (inclusive sensacional, escutem o cara) um dos precursores do movimento dancehall. NX Zero e Cine foram bandas de emocore (acho que isso não é novidade pra ninguém) e pra quem não sabe, o Eminem ganhou destaque no seu grupo de rap, o D12, lá nos anos 90.

Antes da Lavigne pensar em gadulizar uns MCs… Essa aqui é forte, Paula Lavigne é uma atriz e produtora, que dirigiu o Criolo & Emicida Ao Vivo lançado em 2013. Podemos dizer que ela teve a sua participação no processo de “MPBzação” destes mesmos, tornou suas produções algo mais aceitável aos ouvidos das massas e consequentemente acabou servindo de ponte para o rap ganhar atenção dessa bolha elitista e erudita. Pra ilustrar melhor a ideia da MPB ele fez do Gadú um verbo.

Antes do Rincon ter um hit, e receber uma geladeira Rick… Lá por 2010 o Rincon Sapiência, vulgo Manicongo, certo? Conseguiu emplacar um hit e assinar com a Midas Music, selo do Rick Bonadio, que por sua vez acabou deixando o Rincon na “geladeira” e impedindo que o artista lançasse suas músicas, um vacilo tremendo (situação na qual ele comenta aqui: https://www.vice.com/pt_br/article/7xkynd/rincon-sapiencia-galanga-livre-perfil).

Antes dos ProEmishid ouvirem a minha mix… Então, aqui no final desse verso ele cita os 3 Temores (Projota, Emicida e Rashid), em forma de um acrônimo. Esses 3 ficaram muito populares por serem os responsáveis pela divulgação de seus trabalhos através da venda de mixtapes de mão em mão, porém o que o Don quer dizer com essa linha é que ele já fazia isso, antes de tudo isso, lá em 2007 quando lançou a sua mixtape (Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência) enquanto participava do grupo Costa a Costa.

Agora imagina eu ter que explicar a minha intro
Olha como tá o nível
Eu num tô tirando o Criolo e Emicida
Eu tô falando do jogo
‘Cê tem certeza que fala a minha língua?

Seguindo para o último verso do Don no som, temos a confirmação de que todas as citações e referências não foram críticas aos artistas e sim a algo que vai além deles, nesse caso o rap game.

Ler o título não é ler o livro
Ler o livro não é entender o livro
Depois que ‘cê entender o livro
‘Cê pode colar pra falar que ‘cê num curtiu o título
Certo?

Epa epa epa ‘pera lá meu caro vamo com calma por favor. O que que eu vou te dizer depois dessa tá ligado? Uma vez ouvi do meu professor em Economia Política que o problema dos clássicos é que todo mundo palpita sobre eles porém poucos leram de fato. Aqui a história se repete, existe uma infinidade de situações que essas linhas abordam, ainda mais nessa era da pós-verdade que vivemos.

Isso num é sobre de onde ‘cê vem
É sobre onde ‘cê quer chegar
E o que vai mudar pra quem vem
De onde ‘cê vem, quando tiver lá?
Rapper: ‘cê fez uma grana e num trouxe ninguém
Não fala que isso é hip-hop
Seu lance é ser modelo free da Supreme
Não fala que isso é hip-hop

Esse trecho aqui tá bem autoexplicativo, porém vale o destaque pois se você cresceu no rap e não usou da sua posição/influência pra abrir portas pros outros cê tá errado mano, entrou nessa vida pelos motivos errados, veio apenas pra amaciar seu ego e usufruir do dinheiro e status envolvido.

Vale citar também o Djonga tem um verso com uma ideia bem similar em Junho de 94:

Eu devolvi a auto estima pra minha gente
Isso que é ser hip hop
Foda-se os gringo que você conhece
Diferencie trabalho de hobby

E é essa a real, se tu não trouxe algo de bons pros teus, mano, grandes merda suas linhas, saca?

Só de aquecimento, ‘bora
Em primeiro lugar, ei
Hipócritas, medíocres
Oportunistas, covardes, ratos racistas
Vão se fuder, ei

Fechando o som temos Terra Preta condensando todo aquele sentimento de indignação acumulado que comentei ali em cima, tipo “foda-se a indústria, foda-se esse público medíocre”. Aqui o som dá uma flippada violenta, cada verso dele possui um eco pra ressaltar o sentimento que estava prestes a explodir, tudo isso enquanto o mantra cadenciado “um, dois, um, dois” mantém a dose de caos necessária para este protesto. Eu sempre me pego gingando com a cara fechada quando a música chega nessa etapa. Aiai.

Terceiro som do álbum se chama Aquela Fé e mano… Esse som é de uma melancolia ímpar. Pra mim disparado o melhor som desse álbum. Aqui o Don mostra seu lado completamente saudosista e reflexivo sobre a sua vida. Esse som bate reto gurizada, o setting dele é altamente associável sabe? É tudo tão íntimo, um questionamento sobre a vida aos olhos de um homem que envelheceu e consequentemente notou suas mudanças e contradições ao longo de sua jornada. Foi feito em colaboração com Terra Preta, Eddu Ferreira e Nego Gallo, produzido pelo Deryck Cabrera e DJ Caique.

O beat que dá o tom é preciso, eu não tenho outra definição pra ele, é como se fosse um guia invisível para um mergulho diretamente para as profundezas incertas de Don L, um puta trampo.

…eu tô num cenário de fim de festa, sozinho de novo, em meio às garrafas vazias e bagunça da noite anterior. Sentindo o loop e o peso do cansaço, eu percebo que a diferença principal daquele quarto de favela pra esse apartamento não tá no reboco da parede, nem na vista, nem na cidade, nem em nada em minha volta, mas num tipo de fé ingênua que aquele “velho eu” tinha, e percebendo que perdi em algum ponto do caminho, eu sinto a necessidade dela de volta…

O resto dessa entrevista você pode conferir aqui aonde ele comenta cada faixa do álbum.

Ah, que saudade do que eu nunca mais vi
No fundo dos meus olhos
Será mesmo que eu me perdi
Pelos meus caminhos tortos?
Eu tô cheio desse vazio, poluído por corpos
Eu não sou daqui, minha alma é livre
E eu não me comporto
Eu quero minha fé de volta

Autoexplicativo esse trecho né? Egotrip melancólica na qual ele questiona suas escolhas, seu momento atual e aonde está aquele sentimento de euforia que tanto permeia a adolescência e o início da vida adulta. Dá pra resumir como um “quem nunca passou por isso” né gurizada?

Tem dias que eu acho tudo inútil
Nossa melhor versão é puro ego, fútil
Uma luta contra o mundo
Pra fazer parte do mundo que ‘cê luta contra
O quanto é tudo (fake) vulto
Eu devo tá errado
Eu sou comunista e curto carros
Eu quero vencer e faço amizade com fracassados
Eu quero ser amado
Assumindo quando amo pra caralho
Eu não amo igrejas, quero amar a Cristo
E sempre fui assim, mas, agora, tipo
Eu sinto falta daquele moleque zica
Devoto da santa ignorância
Um moleque insano

Sucedendo o primeiro verso temos mais reflexões sobre sua vida e, desta vez, em forma de contradições, dicotomias pessoais. Ao dizer que sua melhor versão é puro ego, fútil, Don assume a consciência de seus versos e que a “sua melhor versão” estaria associada ao seu orgulho e vaidade. Essa linha sobre ser comunista e curtir carros bateu reto, pois este que vos escreve se encaixa perfeitamente nessa colocação. O fetichismo da mercadoria proposto por Marx explica a inconsistência desse verso, se considerar comunista ao mesmo tempo que assume seu amor por algo tão capitalista como o produto a indústria automobilística bota em cheque as suas convicções. As contradições seguem nesse verso, até chegarem em seu ápice, que seria o amor por Cristo livre de qualquer religião, um amor puro e incondicional. Todos esses pontos levantados trazem diversos questionamentos, quanto ele é real consigo mesmo? Quão comunista ele realmente seria? Quão coletivista ou egoísta?

Inspirado no irmão que me vendia droga
Eu vendia droga pra uns caras que vendiam drogas
E queria a rima no fone dos crias
Como se cria o vírus
Na empresa que vende a vacina

Criar problemas para vender soluções é basicamente capitalismo (ou como disse meu mano Lênin, Imperialismo: A Fase Superior do Capitalismo) e aqui pra contextualizar eu cito a compra da Monsanto pela Bayer. Pra quem não sabe, a Bayer é uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo e a Monsanto é uma das maiores empresas de pesticidas do mundo. Ligaram os pontos? Aqui o Don faz esse paralelo com a sua situação, como se sua música fosse a cura, porém ele precisou vender o veneno até que sua cura fosse acessível.

E é real que incitam guerras pra vender as armas
Ocultam a verdade pra vender mentiras (dar as cartas)
Os ricos são os donos do Estado
Que ainda são os filhos dos senhores de escravos
Que dizimaram os índios
Compraram os revolucionários ou mataram
Em nome de um Cristo, como o de Bolsonaro (ao contrário)
Um que não tem amor, ao contrário
Tudo deturpado
Ingenuidade minha, né?
Querer uma Roc-A-Fella no Brasil, olha minha fé

Abrindo o terceiro verso, ah cara, eu sei lá sabe, eu tô aqui escrevendo tudo e só pensando na construção desse som e o tanto de informação que ele passa, saca? PUTA MERDA MEUS AMIGOS

De cara o ele abre o som com uma clara referência, acho que todos lembram dos mísseis Tomahawk que foram lançados contra a Síria né? Bem, o link tá aqui pra refrescar a memória de vocês. Guerra sempre foi e sempre será algo bizarramente lucrativo, interesse econômico é o que move esse mundo, lembrem disso.

Seguindo, temos essa linha que fala sobre o Brasil basicamente ser comandado pelas mesmas famílias de sempre, desde o século XVI, os enormes latifundiários, donos de escravos, que cometeram genocídios em nome do “progresso”. Uma linha extremamente atual e consciente que faz ponte com a motivação deturpada de limpar a terra em nome de Cristo e dos “bons constumes”.

Pra finalizar esse trecho que separei queria dizer um pouquinho da Roc-A-Fella, também conhecida como o selo musical do Jay-Z que foi fundada em 1995, um puta marco na história do hip-hop, responsável por lançar os álbuns lendários do Kanye West, Memphis Bleek, Rihanna, dentro muitos outros. Um sonho muito distante querer algo da dimensão da Roc-A-Fella aqui no Brasil, porém o que somos sem os sonhos não é mesmo?

Rumando para o final do som Nego Gallo entra com a frase mais enigmática do som

Uma frase muda o fim do filme

Imediatamente após proferida o beat dá uma virada monstra e adquire um um caráter de conclusão, com um coro de fundo que passa uma sensação ímpar de preenchimento. O que vem a seguir é uma egotrip incrível sobre o fardo de seguir os seus sonhos, status quo e nostalgia.

Dividindo um café com um mendigo em trapos
Que canta versos que eu vivi noutro momento
Pra lembrar a fé que viu no camarim
Imagens que falam de mim, noutro tempo
É mais profundo
Então, sem julgamentos vãos
Frases de motivação
Cada um na sua luta
Esse irmão, vida na lata
Lutar nessa situação?

Creio que esse trecho ilustra bem o que quis dizer. Nego Gallo é avançado demais gurizada, inclusive esse lançou um trampo faz pouco tempo, Veterano, vale a pena dar o confere.

Fechando o som temos o último verso de Don e francamente, não tinha maneira melhor de fechar, saca? Pega a visão:

Uma frase muda o fim do filme
São tantos caminhos
Tantos desvios
Depois de perder o sentido
Uma frase muda o fim do filme, uhh

Uma frase muda o fim do filme
Mas é interno o maior labirinto
‘Cê tá ligado bem, amigo
De volta ao motivo
Não
De volta ao motivo do motivo
Mil voltas no mundo
Em buscas e buscas
Depois, mais mil voltas em círculos
Um circo, num cerco de insanidade (uhh)
A fim de recuperar o que ‘cê já tinha no início

Mas é interno o maior labirinto, cê tá ligado bem… É, realmente, tô ligado bem. Tipo, é como se fossemos cada vez mais descobrindo camadas em nosso interior e um labirinto subjetivo e íntimo se formasse a cada experiência tida. Quem é que nunca se sentiu perdido dentro de si? Quem nunca deu uma volta enorme pra, no fim das contas, se dar conta de que sempre teve o que procurava?

Bem, o EP dá uma guinada caótica a partir deste som, que se chama Cocaína, tipo, se liga nesse trecho da entrevista dele pra Redbull que linkei acima:

…É um mergulho no caos. Depois da desilusão, a dose de adrenalina. Se é isso que tá tendo, deixa eu sentir no máximo. É sacar muito bem o que tá acontecendo e o grau de inviabilidade de qualquer mudança substancial a curto prazo, e se adaptar a isso, se camuflar no caos e criar uma realidade paralela, e tentar ser feliz pra hoje dentro de uma matrix….

Essa track ainda tem o mestre louva-deus Fernando Catatau mandando uns riffs brabos de guitarra. Esse som é intenso, mano, se liga como Don chega:

As ruas já não cabem mais carros

A câmera não cabe mais fotos

A nuvem já não cabe mais vídeos

A ação não sabe mais o propósito

Tão temperado que ficou insípido

Tão bons modos, que ficou inóspito

Tão colorido que ficou ridículo

Tão cheio, que ficou um vazio nórdico

Tudo está saturado nos dias de hoje, e através das metáforas pontuais de Don ele expressa a sua sensação de sufocamento com todas as coisas sempre pendendo pro excesso. Primeiro ele cita a superpopulação, tomando como base a cidade de São Paulo (que é aonde ele mora), traçando um paralelo com a acessibilidade da tecnologia, na qual tornou toda e qualquer interação algo frívolo o suficiente para ser compartilhada a todo momento (e aqui eu culpo o oversharing) e por último vem o pedaço mais genial deste verso. Confesso que fiquei refletindo em cima do “Tão temperado que ficou insípido” até conseguir associar com o fato de muita gente não estar vingando no rap por usar tempero demais nos seus trabalhos. Tipo aquele rango do seu amigo que tá começou na gastronomia e tá empolgado demais, manja? É como se o produto final não ficasse mais palatável por culpa do excesso. Enfim, sumarizando, é como se tudo estivesse ficando entediante devido as tendências pela “excelência excedente”.

A música segue como um grande foda-se, uma grande dose de adrenalina, um caos generalizado. Tem mais um trecho aonde ele cita Belchior:

Então, vamos chapar pelas ruas de São Paulo, como Belchior
Meu amor
Eletrificado, como Belchior
Meu amor
E gritar alucinado, como Belchior
Meu amor
Meu amor
Vamos dar um calote em um hotel de luxo, como Belchior
Mandar se foder o mundo, como Belchior

Através da citação da música Passeio de Belchior, acredito também que Don não tenha escolhido citar ele à toa (afinal Belchior também é um cearense que passou perrengues em São Paulo). Três coisas me chamaram atenção nesta citação, a primeira foi o destaque para “eletrificado”, bem, não é de hoje que usam palavras que seguem a linha de eletricidade pra se relacionar com cocaína, a segunda é o tão famoso calote do Belchior num hotel 4 estrelas no Uruguai que durou 6 meses KASPOKAPSAOPSK foda mano, calote brabo de guri ruim, por último o “mandar o mundo se foder” — Cara, eu creio que essa linha tá relacionada ao sumiço dele, saca? Muito provavelmente esse tenha sido o maior “foda-se” do Belchior.

Sucedendo temos aqui o que chamo de faixa adendo, é uma continuação do instrumental de Cocaína porém com uma fritura insana do jazz, que renasce aqui com o nome de Cocainterlúdio. Uma dose prolongada do efeito eletricamente caótico da última faixa, um mergulho introspectivo através dos sopros precisos de saxofone do Thiago França, das teclas consistentes de Maurício Fleury (confesso que tive que procurar sobre ele, não conhecia mas já admiro) e da batera cadenciada de Thomas Harres (que pertence ao grupo Abayomy Afrobeat Orquestra).

Cara, esse som é gostoso demais de ouvir, eu diria que é como se fosse um ótimo retrogosto de um bom café (ou uma boa ceva). Uma vez absorvida o som anterior entramos aqui no desfecho ideal.

Na 6ª faixa temos Mexe Pra Cam com participação da Lay, e mano, sons eróticos são um teto. Na minha humilde opinião essas coisas são 8 ou 80. E adivinhem? Esse certamente é um 80. Mais um daquelas que tu ouve e fica “hmmmm então quer dizer que tu é o brabo do sexo?”. As metáforas, a cadência do beat, o flow, as metáforas, tudo encaixa muito bem (tipo aquele sexo furioso com a maldita tusabesssss).

Um lance afudê desse som é que mesmo com toda essa temática ele não deixa de mandar recado, saca só nesse pré-refrão:

E é sem stress, claro
Ninguém deve nada
Porque revenge porn é pra otário, né?
Mexe, pra minha câmera, um lap dance
Let’s bang
‘Cê é muito sexy
E sexo é arte
Sexy, e sexo é arte

Nunca achei que veria uma linha sobre revenge porn numa música, ainda mais num rap. Lembrando que não tem nada de errado em construir uma intimidade sexual com alguém e explorar esse lado, aliás, sorte de quem consegue isso, errado é quem quebra esse contrato. Mas é issaê mano, expôr a intimidade alheia é mó ideia errada. Pessoas já cometeram suicídio por esse motivo. Sejam mais que isso.

Notem que essa música ainda segue a linha de desordem que a Cocaína introduziu, é como se após o mergulho introspectivo proposto pelas duas músicas anteriores fosse posto em prática nessa, através de um impulso lascivo, íntimo e com a necessidade de ser registrado.

Lay chega braba demais também nesse som, ela tem um talento absurdo. Primeira vez que eu ouvi ela foi num outro feat com o Don na track Chapei. O beat fica ainda mais rítmico no verso dela, podem notar, a voz dela carrega um desejo intenso, chega a ser explícito. A real é que escutando esse som eu só consigo ficar meio “puta merda essa mina certamente dá um chá de buceta”. Parada fina, esse som me surpreendeu muito.

Próximo som se chama Ferramentas e tem a participação do Gato Preto, a trajetória desse mano é muito interessante cara, participou de muitas oficinas educativas nas FEBEMs, bem como era ativista do movimento negro. Infelizmente foi assassinado com oito tiros em 2016. Foda.

Bem, esse som claramente fala sobre ambições financeiras e sobre os meios de como obtê-la. É louco como as pessoas expressam suas ansiedades, e a vontade de fazer dinheiro é algo que me intriga muito. Tem todo um lance de prestígio, ascensão social por trás e também um pouco de revolta. Esses dias eu ouvi uma metáfora que creio ilustrar bem essa cena: “Tu passa a vida inteira num eterno 7×1 e quando tu tem a chance de revidar, cê não vai querer equilibrar o placar, morô?”.

Mas a parada que mais me chamou atenção é o fim do som, aonde rola um áudio do Gato Preto mandando aquela ideia motivacional, foco no corre e ser livre:

As ideia é, ‘cê tá ligado
É pra gente — vai trocando umas ideias
E vamos, né, aprendendo um com o outro
Trocando, e daqui a pouco, porra
É nóis fazendo o nosso, mesmo
Cê sabe como é que é, né?
E nóis vai fazer isso, mano
Nóis vai fazer o nosso
Do jeito que nós queremos, irmão
E outra, o principal de tudo:
Liberdade, no sentido mais pleno de sua palavra
Liberdade na premissa genuína do que é ser livre
Liberdade, cada um faz seu trampo
A forma que quer, do jeito que quer
E vamos pra luta, negão
Vamos pra luta

Brabo.

Penúltimo som se chama Se Num For Demais e aqui o álbum adquire um caráter cíclico, o eterno retorno, a ambiguidade de precisar se desconstruir para poder construir novamente.

E eu quero mudar o mundo
Quero foder o mundo
Não tô feliz
Eu preciso fazer um bagulho, eu preciso disso
Eu preciso recomeçar e acabar com tudo que eu era
Eu juro que será um puta movie
Puts, a minha vida é um loop do Fight Club
Dirigido por Aïnouz
Muita treta pra Tarantino
Muito denso pra Hollywood

Clube da Luta é um clássico atemporal, por mais que seja integrante do starter pack do cinéfilo comum, ele é bruto, crítico, subversivo e emblemático. Assim como a vida de Don, porém visto pelos olhos de seu conterrâneo cearense Aïnouz. Realmente te faz pensar sobre o quão relacionável são nossas vidas com as obras que nos cercam, é como se a complexidade delas nos contemplassem enquanto seres humanos, como se dissessem aquilo que sempre tivemos a vontade de dizer mas não sabíamos como.

Ah é, a primeira vez que ouvi ali o Muita treta pra Tarantino na hora bateu na mente aquele verso do Brown em Dá Ponte Pra Cá “Fundão, muita treta pra Vinícius de Moraes”. Contextualizando, o Brown profere uma pá de quebradas, num teto de que elas são complexas demais pras pessoas alheias entenderem, até mesmo um erudito como Vinícius de Moraes.

Fechando o EP temos Laje das Ilusões, o único single do conjunto. Esse som tem um clipe massa pra caralho, aliás as produções audiovisuais desse cara são um show à parte. Acho que aqui encerra aquele ciclo que comentei anteriormente sobre o eterno retorno, fechando a trajetória de uma maneira tão intensa a ponto de te fazer desejar passar por tudo isso novamente.

É um teto como Don tem um visão niilista e hedonista da vida ao mesmo tempo, a união do ceticismo radical junto com culto do prazer como o maior bem da vida é o que torna esse trabalho tão único. O hedonismo em especial fica bem evidente nesse clipe e no clipe de Sangue É Champanhe (que inclusive precisou ser upado no Vimeo pois motivos de hihihihi sexo hihihihi nudez).

Ao ouvir esse som, eu tenho a impressão a impressão de que há uma perpetuação na busca pelo prazer através dos desejos. Se liga no refrão:

Enquanto você dorme, o tempo anda
Enquanto você anda, o tempo corre
Enquanto você corre, o tempo voa
A gente voa alto e o tempo não volta
Enquanto você dorme, o tempo anda
Enquanto você anda, o tempo corre
Enquanto você corre, o tempo voa
A gente voa alto e o tempo não volta

É como se uma coisa levasse a outra e assim repetida e sucessivamente. Gosto muito desse som, cara, faz eu me sentir jovial ao mesmo passo que me dá aquele toque de que o tempo urge (curioso dizer isso quando se tem apenas 24 anos mas é isto).

Esse trampo é daqueles que nasceu como um clássico tá ligado? 35 minutos da mais pura ideia reta. Não é a toa que o bicho tá no meu top 5 há uma cota. Parada lapidada com maestria, feita com amor e a experiência de quem tá no corre há mais de 10 anos. Uma busca incessante ao eu através da busca dos próprios limites. De fato na expectativa pelo próximo trabalho dele.

E eras isso pra hoje gurizadinha, fiquem bem, continuem saindo de máscara, cuidem dos seus e semana que vem tem mais.

Publicado por William Sandino

Alguém que adora dar pitacos sobre o que acha que entende

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