Análise Abaixo de Zero: Hello Hell - Black Alien

Coé gurizadinha, como é que tamo? Espero que cês estejam conseguindo juntar forças pra aguentar a rotina.

Enfim vmdl pra não tomale, temos aqui um dos dinossauros do rap nacional, alguém que caminhou muito pra pavimentar as ruas líricas de hoje em dia, ex integrante do Planet Hemp, o mister rude boy (mister superhero, do inglês superherói), o cara que melhor articula palavras em inglês no meio do som, aquele que fez o RJ parecer pequeno perante a Niterói, ele mesmo, Gustavo Black Alien.

E tipo assim, ele foi responsável pelo lendário Babylon By Gus Vol 1 — O Ano do Macaco lá em 2004 e infelizmente após isso ele se afundou grosso na cocaína e álcool a ponto de precisar de reabilitação. Ficou 11 anos low profile e em 2015 lançou No Princípio Era Verbo — Babylon By Gus Vol 2. Porém ano passado ele nos presenteou com Abaixo de Zero: Hello Hell e contrariando as minhas expectativas esse álbum não leva o subtítulo de Vol 3.

Esse é menor álbum dele, apenas 9 faixas e com a duração de apenas 25 minutos, porém igualmente metafórico e denso como seus outros trabalhos. A produção fica por conta do glorioso Papatinho (bah esse louco é avançado por demais, dispensa apresentações), apenas a nata do boombap, sonoricamente feito em cimas de bases do jazz, soul e blues esse trabalho condensa de uma maneira requintada as rimas analíticas de nosso tão querido Gustavim.

Posso dizer que esse trabalho é um misto de superação com celebração à vida e uma pitada de melancolia. Também posso dizer que esse fudido é fisicamente incapaz de fazer música ruim, é impressionante mano, o cara não desperdiça UMA LINHA. Enfim, bora dar prosseguimento.

Iniciando os trabalhos temos Área 51 e ele já abre anunciando que apesar de tudo o pai tá volta, se liga:

Esse é o retorno do cretino
Dos clássicos, hits, hinos e o bolso cheio de pino
Vai vendo, só veneno na visão de zoom
Bebendo cachaça no bar da Área 51
Check it!

Sinceramente, tendo começado em 93 esse cara tem MUITA história pra contar e uma coleção gigante de clássicos nas costas e é isso que ele deixa claro aqui, o retorno daquele que muito fez (e ainda faz) pela cena. Bem, quanto ao bolso cheio de pino… eu costumo dizer que O Ano do Macaco é basicamente a melhor coisa que a cocaína fez neste país. Último detalhe que eu queria destacar dessa intro é ele brincando com o seu nome alienígena e mandando um veneninho pra dentro na Área 51.

Não ir pra frente é retrocesso
Nada que vale a pena é fácil
Encara o processo, é assim que eu faço
Quem precisa de correntes de ouro pra ser Gustavo?
Quem precisa de correntes de ferro pra ser escravo?

Recentemente eu vi uma entrevista dele falando sobre as suas internações e, se bem me lembro, teve essa que durou 28 dias, acabou fazendo ele refletir sobre o que seria da sua carreira e como ele conseguiria tirar o seu sustento. Viver de remix? Viver da sua imagem? A resposta encontrada por ele foi progredir. 

Aliás, gostaria de dizer aqui que é muito louco como o processo criativo pode estar ligado tão fortemente com a insatisfação.

Plantas já me dão tédio
Plantas me dão o remédio
Plantas me dão o prédio, se o cofre é o que eu quero
Vim pesadão, ninguém vai me derrubar
E problema com pó quem tem é o dono do bar

Aqui temos o refrão, que eu gosto bastante, aonde ele utiliza de 3 significados para a palavra planta, a primeira sendo maconha (usguri não querem mais saber de droga tá ligado), planta de onde extraem remédios e tal e por último a planta do prédio. E de novo ressaltando que cocaína são águas passadas.

No segundo verso do som ele vem intimista de novo, e eu ve vejo obrigado a destacar ele inteiro:

Vital pra mim, que nem a moto pra Vital
Paralama do meu sucesso
De fábrica, original, é minha coragem
Flow, sotaque elétrico em alta voltagem
Alço voo na métrica até voltar de viagem
Meus refrões, mantras; cifrões e pilantras
Veja o que a arca de Noé fez só com um casal de antas
Se tá tudo pela órde, então, irmão, é só pó-gresso
Ainda bem que eu não recebo ordem, nem tudo que eu peço
Invicto no fracasso, invicto no sucesso
A gata mia, boemia aqui não me tens de regresso
De boa aqui na minha — não foi sempre assim, confesso
Levitei em excesso, neve tem em excesso
A costela quebrada me avisa quando eu respiro
A favela e a quebrada te avisam quando me inspiro
Tiro do fundo do peito, dropo com muito respeito
A frase que muda a escolha de alguém no parapeito
Foda-se o inferno de Dante, eu não quero é o de antes
É sangue, suor e lágrima, ou mais inferno adiante

Credo maninho, abrindo temos uma referência a Vital e Sua Moto — Paralamas do Sucesso pra dizer que a coragem é algo que habita em sua essência (e convenhamos né mano, é preciso uma tonelada de coragem pra superar dependência química). O verso do casal de antas é um deboche destilado maninho, cehloko, invicto no fracasso e no sucesso é impactante, pra dizer o mínimo.

Temos uma outra referência a Nelson Gonçalves-A Volta do Boêmio, uma música que, como o nome sugere, fala sobre a sua volta pra boemia e Gustavo usa isso pra ressaltar a sua blindagem.

Quando ele fala neve tem em excesso creio que ele esteja falando do RJ, inclusive me lembrou um verso do brabíssimo MV Bill-Guerra de Facção:

O dia amanhecendo, de volta a rotina
Rio de janeiro, cidade da cocaína

Enfim mano, cês pegaram a visão que eu tô ligado, bora pro próximo som.

Segunda faixa se chama Carta pra Amy e é isso aí mesmo que cê pensou, Black Alien é fã assumido de Amy Whinehouse (e com toda a razão). Tipo, a habilidade que ela tinha em cantar e olhar pelo lado da adicção podemos reparar que ambos têm muito em comum. A ideia mais uma vez é martelar a superação, pontuar seus progressos e exaltar a sua tão merecida paz de espírito com uma vida estável e saudável.

Mestre em passar a visão atráves de termos paradoxais e formado na arte de rimar no tempo do beat (o bicho é o próprio Cronos do rap eu fico no HORROR).

Lá vai o maltrapilho bem vestido, mulambo perfumado
Faz mais um furo no cinto, faz mais sentido
Fluindo no instinto, magro e drogado
Listen to the lesson: lição sem vinho tinto, mil grau
Sessenta e blau o grau alcoólico do absinto
Cheiro de flor boa no recinto e tal

Ele começa abrindo o som falando de si em outros tempos, uma rotina cara demais pro retorno recebido. Mostrando mais uma vez que aparências enganam e de fato é uma ótima máscara, ainda mais hoje em dia, aonde a tecnologia proporciona um controle total da tua imagem.

O en-us/pt-br, provavelmente seu traço mais característico, já aparece nos primeiros segundos de som.

Também tem cheiro de inveja

Boiando no assunto que nem vitória-régia

E o que rege-a, planejo

Deus ri, mas admira a minha estratégia

Tipo assim ó, o jogo de palavras desse cara é ABSURDO, maluco rimando chega a massagear meu ouvidos. Porém o destaque aqui vai pra esse Deus ri pois é proveniente dum ditado (O homem planeja e Deus ri) iídiche (idioma praticado por judaicos europeus, mistura uma caralhada de idiomas, inclusive o próprio hebraico). Me lembrou um verso do Akira em Canto das Baixas:

Agora vendo que o que nós faz pequenos

É não perceber que a vida é feita de planos errados

Tem outra coisa que me chamou atenção nesse som, é o primeiro trabalho dele com palavrões. Curioso né? Me lembrou as neuroses do Rashid, que não rimava com palavrões por medo da rejeição. Sepa o eu mais velho do Gustavo finalmente entendeu a não dar bola pra isso.

No confinamento, as paredes são minhas páginas de cimento

Essa aqui também é braba, durante o tempo de reabilitação, confinado no quarto da clínica, Black Alien comenta ter escrito diversos versos e músicas. Assim como presidiários que escrevem nas paredes da cela por não possuírem algo pra rabiscar.

Refrão também tá recheado de referências, se liguem

Mostre-me um homem são e eu o curarei
You’re running and you’re running and you’re running away
Não posso correr de mim mesmo, eu sei
Nunca mais é tempo demais
Baby, o tempo é rei
Em febre constante e o dom da cura
Nem mais um instante sem o som e a fúria
Não posso correr de mim mesmo, eu sei
Nunca mais é tempo demais
Baby, o tempo é rei

Credo mano, esse primeiro verso é uma frase do Carl Gustav Jung (coincidência compartilharem um nome né não), também conhecido como o fundador da psicologia analítica, em seguida rola um trechinho de Running Away do lendário Bob Marley and The Wailers. O Tempo é Rei é um monólogo de 18 fodendo minutos do Brown mandando AQUELA. IDEIA. RETA. 90º. DIRETO NA MENTE. 18 minutos de “bah mano pelo amor de deus eu boto muita fé”. Vale muito ouvir, fica aí o dever de casa. Por último queria falar sobre uma entrevista dele pra folha de sp (não tem paywall pode ler sem dó) e como a música salvou a vida desse cara, como ele mesmo disse “foi a música que prejudicou minha carreira nas drogas“.

Se um dia a coragem foi líquida, agora ela é sólida, irmão
Tenho não só que lidar com a vida
Lido com ela sem pó e sem dó, então
Sozinho, eu tô em má companhia, tá ligado?
Nem durmo mais tanto
Linha por linha, de café e aguinha
Sempre hidratado pro próximo pranto

Segundo verso é inaugurado com mais referências da sua (ainda bem) ex-vida como adicto, em sua participação do podcast POUCAS, Gustavo comenta sobre como sempre precisou beber pra poder encarar a multidão enquanto se apresenta, daí a coragem líquida. Hoje, muito mais forte e lúcido temos um homem que superou seus medos e não precisa mais encontrar soluções nas drogas.

Esse som tem mais duas referências a bandas de rock dos anos 90, aliás, estilo de música muito consumido por ele (até porque nessa época ele cantava na tão querida banda de rap rock Planet Hemp).

Juventude sônica
Um por cento de chance, noventa e nove de fé

Sonic Youth (juventude sônica) tem um som, um dos mais conhecidos inclusive, que se chama 100%

Viciado em caos, amanhã tudo outra vez: ritual de lo habitual

ritual de lo habitual é o nome do segundo disco de jane’s addiction (olha aí vício sendo citado mais uma vez de maneira bem sutil)

Seguindo na tracklist temos Vai Baby e esse é um dos sons mais conhecidos deste trabalho. Love song classuda, de nego véio, refrão bem marcado, porém mesmo falando de amor ele não deixa de dar aulas em referências uiuiui que homem. Se liga como ele chega:

Quero mais e melhores blues
Com água sob os pés; sobre a cabeça, céus azuis
Mais e melhores jazz, mais e melhores Gus
Só de tá na busca, eu tô além do que eu supus

Mais e melhores blues é o nome dum filme do Spike Lee, lançado em 1990, filmaço meus caros, fica a recomendação. Depois é retratado aquela situação de lazer, pézinho na água, solzão estralando… tamo como?? Enjoado por demaissss. Por último aquela linha reconhecendo a sua constante evolução, em busca de estar cada vez mais lapidado, coisa que tempos atrás fugia se sua perspectiva.

Vem que vem de marcha a ré, descendo, deixa solto
Lugar melhor no mundo, eu não conheço outro
Platônico e na prática é ginástica
Atômico, arrepia os cabelinhos, é tipo estática

Is that a motherfucking sexo reference???????? Apesar do desejo de ter ela vindo de costas eu queria falar sobre a relação amor platônico x amor carnal que fica evidente na última linha. Na época da Grécia Antiga, existiam 7 palavras pro amor, cada uma abordando uma versão diferente dele por assim dizer, as 3 mais famosas são ágape, eros e philia (amor ao divino, amor romântico e amor fraterno respectivamente resumidos de maneira grosseira). Aqui ele diz que possui tanto o lado emocional quanto o lado erótico em seu relacionamento, uma prática inseparável pro assim dizer.

Vai, baby, eu vou te esperar e quando voltar
Eu vou tá aqui pra ‘cê me dar aquele chá, baby
Eu vou te esperar, e quando voltar
Eu vou tá aqui pra ‘cê me dar aquele tchau, baby (uh, ohh)
Eu vou tá aqui pra ‘cê me dá chá, baby (uh, ohh)
Eu vou tá aqui pra ‘cê me dá aquele

No refrão, que imediatamente fica na mente, temos dois usos pra palavra chá, sendo o primeiro no sentido do clássico chá de buceta, expressão clássica pra aquele sexo que te deixa simplesmente desnorteado™ quando acaba, já o segundo sentido é na gíria pra maconha, visto que existem muitos relatos entre o aumento do prazer sexual sob efeitos da planta, facilitando a execução do tão estimado chazão de buceta.

4º som do álbum, temos o primeiro single, também conhecido como Aquele Som Que Foi Usado Pra Divulgar Que Tava Vindo Cd Novo. Te falar que foi uma surpresa ter visto essa Boombap furioso, cadenciado e denso. Digno de um professor, aulas y aulas. Seguindo a estética do álbum temos metáforas do passado, sua superação e até mesmo aquela dose de foda-se pros que duvidaram dele.

O clipe também é de suma importância, foi gravado em uma das clínicas de reabilitação que ele ficou internado, sério, dá o confere.

O cochilo da tarde é meu xodó do momento
Nem quica, a vida é tombo em pista de cimento
“Black Alien já vai tarde, já passou o seu momento.”
Significa que o cidadão não tem conhecimento
(Grrrr! Woof!) Da força, da fé, da febre e da fibra
Nessas portas meto o pé, enquanto a galera vibra

Certamente descobrir novos prazeres é uma das maravilhas que a vida pode fornercer conforme o tempo passa e falador passa mal meu mano, isso é sabido desde o começo dos tempos. Precisa de muita força e apoio pra superar dependência química, pela saco tem aos montes pra falar e essa foi pra eles.

Me preocupa é o celular que vibra ao lado do meu saco
O resto todo que dá câncer eu já vou lançar no vácuo

Existem estudos que apontam uma relação entre infertilidade masculina devido a exposição constante com o celular que fica no bolso, assim como usar notebook no colo. Mais uma vez mostrando que possui novas preocupações. Tem uma baita entrevista com o Ronald Rios em que eles trocam uma baita ideia sobre vida, sobre carreira e esse assunto tá incluso junto.

Tô que nem cachorro, suando só no focinho
Só não vem facin’, senão qualquer um desenvolvia
É tempo de templo, só rato cinza na via
O que vem facim presta não, se envolvia
Do sol da meia-noite até o sol do meio-dia

Baita metáfora com o focinho do dog, tipo, puxando a questão da cocaína e seu uso extremamente prolongado e fazendo a correlação com o focinho canino, que estar úmido é um indicativo saudável. Foda né.

Nem tão longe pra tu chegar aqui de mala
Nem de longe é tão perto que pode vir de chinelo
Nem de longe eu virei monge, apenas parei de dar pala
Vagabundo fala um monte, são pregos pro meu martelo

vagabundo fala, fala mas no fim das contas só gera motivação pra crescer

Rola uma saidinha na finaleira do som aonde temos mais um palavrão, que né, não é muito comum nessas linhas:

Não tem como funcionar
Vai sempre dar ruim pra você
Bocas mexem — blá-blá-blá
E eu só faço o que tenho que fazer
Não tô nem aí, nem lá
Tô bem aqui, além do que se vê
Se vem baseado no passado, só há um resultado:
‘Cê vai se foder
Porque eu sou o agora, eu sou o agora

Isso é quase um ode a superação, confirmando que conseguiu se desprender do eu do passado, Gustavo atesta que esta sua versão atual é a definitiva, ele realmente é o agora.

Dando prosseguimento ó meus leitores temos o meu som favorito desse álbum, conhecido comumente como Take Ten. Aiaiai nesse ele simplesmente brinca de ser foda tá ligado, eu fico embasbacado. Ah é, o beat desse aqui é absurdo, Papatinho é total fora de série, tu tá maluco.

Deus habita no silêncio
Que as vozes na minha cabeça quebram sem o menor senso
Quem tem boca fala o que quer
Eles têm arma e têm droga
Quem tem boca fala o que quer

Bah qualé que vai ser cupinxa, qual a necessidade dessa aí? Já abre o som dando um tapa de vagabundo em quem tá ouvindo. Esse duplo sentido pra quem tem boca fala o que quer é absurdo, afinal as bocas de fumo são comandados por quem muitas vezes são considerados as reais autoridades da comunidade. Também lembrou aquela máxima do Brown em Jesus Chorou:

Quem tem boca fala o que quer pra ter nome
Pra ganhar atenção das mulheres e outros homens

Em seguida ele vem com:

Mar de nêgo perdido procurando Nemo
Sem rumo, sem remo, no nado, mesmo — oh, can you feel me?
Frita na cocaine, se envolve no crime
Fritando em Coltrane, ouvindo A Love Supreme

Se vocês repararem esse can you feel me é cantado em outra entonação, fazendo uma clara homenagem ao 2Pac que tanto proferiu essa, cehloko. O jogo de palavras que rola na sequência também é uma arriada, assim como a mensagem. A lenda do jazz John Coltrane teve sérios problemas com a heroína, sendo assim mais uma referência direta pro Gustavo. Por fim destacar ele dizendo que é melhor fritar ouvindo música do que fritar sob o uso de drogas.

No refrão temos o seguinte:

Mister Black, take ten, don’t pass
Mister Brubeck, “Take Five” inna di jazz
Mister Black, take ten, don’t pass
Mister Brubeck, “Take Five” inna di jazz
Mister Black, take ten, don’t pass
Mister Brubeck, “Take Five” inna di jazz
Mister Black, take ten, don’t pass
Mister Brubeck, “Take Five” inna di jazz

The David Brubeck Quartet, um dos mais famosos grupos de jazz (e claramente pertencente da bagagem cultural de Gustavo) possui um som chamado Take Five, tornando assim essa faixa uma clara homenagem. Tem também o uso da gíria dar um dez que significa dar um tempo, mister black, take ten, don’t pass vem com a ideia de que ele deu um tempo de passar o baseado na roda.

Hoje cedo, no Muay Thai de manhã
Outros tempos, só Deus sabe onde ia tá de manhã
O cara vai ter pra adiantar de manhã
Praticava o caratê de rá-tá-tá de manhã

Aqui na tem como, pelo amor de deus. Tinha que ter um selo de verificado, um certificado por ter mandando essa letra. Eu fico atônito de ver quantas maneiras ele consegue metaforizar sobre o passado e também a capacidade de rimar usando a mesma palavra nos versos sem ficar banal. Acredito que todo mundo conheça caratê, mesmo que vagamente, tem esse movimento, o karate chop, movimento similar ao de separar as linhas de cocaína e a última relação é a gíria de cheirar, dar um tiro, por isso o rá-tá-tá.

Último trecho que queria destacar é esse:

Meu fígado não concordou com meu estilo de vida
Meu cérebro acordou, tirou meu bloco da avenida
Um-nove-nove-três, primeiro rapper da cidade
Dois mil e dezenove, poucos rappers dessa idade

Depois dessa até me levantei pra ir pegar uma água, dar uma respirada, porque não é possível mano, é cada uma atrás da outra que fico atordoado. Beirando os 50 anos certamente Gustavo é um dos mais antigos rappers vivos e em atividade que temos, contrariando todas as expectativas impostas pelo sistema.

Na 6ª posição temos Au Revouir, um som mais calminho, nem por isso menos denso que os demais, passa uma ideia de desabafo, botando suas dúvidas em questão ao mesmo tempo que reafirma a manutenção de sua saúde mental.

É certo o quanto meu afeto por ela afeta a mim
Perco a fé, passa a brisa, só deprê, amor amphetamine
Ela é o meu próximo céu, meu próximo inferno
Ela é o meu próximo hell

Anfetaminas são substâncias que estimulam o sistema nervoso central e não se enganem, elas também compõem alguns remédios, mas num geral é uma substância que te deixa LIGADAÇO, de drogas mais conhecidas temos a cocaína, metanfetamina e ecstasy, todas que liberam doses absurdas de dopamina e como Gustavo mesmo disse acima, te levam tanto para o céu como pro inferno.

Queria destacar esse trecho do segundo verso:

Corta pra antes, paranoia delirante
Avião que não decola
Amor, hoje, só amanhã
Agora, luz da claraboia nos amantes
Avião decola à tarde
Hoje, tem amor de manhã

Juro pra vocês que nunca vi alguém metaforizar uma brochada desse jeito, o uso extensivo de drogas tem diversos impactos no corpo e impotência sexual é um sintoma bem comum, enfim, pelo visto também ficou pra trás.

Próximo som se chama Aniversário de Sobriedade e esse é mais uma que o Papato veio debochado no instrumental, tifude, música bem curtinha, cerca de um minuto e meio de letra. A ideia que eu peguei aqui é uma espécie de monólogo, aquele momento da autorreflexão sabe? Se liga:

Vish! Meu cumpade, que fase
Me olho no espelho — mas, Gustavo, o que fazes?
Cadê as letras? Esqueceu da caneta?
Fica só cheirando em cima do CD de bases
Os beatmakers: melhores do país
E eu só vou pra Jamaica pra acalmar o meu nariz

Eu diria que a cobrança interna é a pior de todas, aquela que tu não tem como fugir, aquela que te assombra diariamente, ainda mais quando tu passa pelo processo de reabilitação.

Mete a venta e não produz; bye, bye, Gus!
Babylon by Trevas, Volume Zero: Sem Luz
Tô sem frases, o que me trazes?
Isso é metanfetamina, a droga dos kamikazes
Precisam de coragem pra poder morrer na guerra
E eu preciso de coragem pra viver fazendo as pazes — ou quase

11 anos se passaram entre seus dois primeiros trabalhos solo. Antes do Vol 1 ele já era usuário de cocaína e álcool, realmente mergulhado nas trevas. Meter a venta é mais uma das inúmeras gírias pra cheirar. Kamikazes, caso tenham esquecido, eram os pilotos japoneses de avião que cometiam suicídio afundando suas aeronaves nos navios inimigos durante a 2ª guerra, de fato é necessário muita coragem pra fazer algo desse nível, assim como é preciso de muita coragem pra viver após um profundo vício.

Jamais Serão ocupa a posição de penúltima faixa e bah certamente tá no meus top3 desse trabalho, tem como não, clássico jazz magistralmente rearranjado contemporaneamente. Aqui ele tira onda (o próprio títuo da faixa já indica isso), egotrip das boas.

Black Alien on the microphone, friends call me Gus
Vice-versa, my verse to the universe
Niterói a Londres, Nova York, Lisboa, Paris
Numa boa em Tóquio
Talking worldwide music, please
Essa é a vida que eu sempre quis, nem sabia
As ruas ouvem o que a gente diz, eu sabia
De noventa e três, onde estava, esteve, fez?
Dropo versos pra vocês no meu português-inglês

No começo de sua escrita saíam apenas versos em inglês, o responsável por dar a ideia de escrever em pt-br foi ninguém menos que o D2, situação narrada nesta entrevista aqui

Ossos do ofício são os ossos do ofício
Se vem de vacilação, quebramos ossos no ofício
Eles dizem que acabou, informo: não, é só o início
Beatmakers, velhos sócios no meu mais antigo vício

Fazer música provavelmente é um dos únicos vícios que faz questão de manter, com a ajuda dos beatmakers e de fato está realizado por conseguir suprir a necessidade.

Fechando o álbum temos Capítulo Zero, a mais curta do álbum, dá um tom de despedida pro desfecho, um adeus pra Babilônia interna que ele carrega. Aliás, se um dia vocês se perguntaram porque existem tantas citações à Babilônia na cultura rasta aqui tem uma explicação básica do assunto, pra dar aquela contextualizada. Black Alien, muito influenciado pela cultura rasta traça esse paralelo com a sua realidade e sua vontade de se distanciar do que carrega de ruim.

E com essa terminamos mais um textinho meus caros, se possível tirem um tempo pra abrir os links da matéria, eles agregam demais no entendimento desse trabalho e do Gustavo como pessoa mesmo. Esse disparado foi meu álbum do ano em 2019 e direto tá nos meus fones, não tem como.

Como sempre, agradeço quem leu até o final, ele tá em todas as plataformas digitais pros ouvintes curiosos, inclusive de graça no YouTube pode dale sem dó. No mais fiquem bem e até a próxima semana <3.

Publicado por William Sandino

Alguém que adora dar pitacos sobre o que acha que entende

Um comentário em “Análise Abaixo de Zero: Hello Hell - Black Alien

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