Retratos de uma Quarentena

Escrevo por prazer e por sentir a necessidade de me expressar – e como gosto de fazê-lo. Sinto-me livre, leve e solto ao dar vida aos pensamentos, colocá-los num bloco de notas do meu celular, em um post it, em uma folha solta de algum caderno que esteja jogado pelo meu quarto ou em uma revista digital. Sou o Alexandre, um entusiasta da fotografia, prazer em conhecê-los. Tenho vinte e quatro anos, sou estudante de Administração Pública e moro na Capital desde que nasci. Incapaz de escrever sobre mim em poucas linhas – seria limitar-me, mas à medida que vocês seguirem na leitura, é provável que acabem por me conhecer melhor. Ou não.

A imponência arquitetônica de um dos principais prédios do Centro Histórico, localizado junto à Rua dos Andradas

Eu, assim como muitos, nutro um carinho especial pela cidade. Entre as principais características, vale ressaltar a bela arquitetura do Centro Histórico, o clima bucólico do Moinhos de Vento, a tranquilidade do Bom Fim e, por último mas não menos importante, a boemia da nossa amada, querida e mijada Cidade Baixa. Acabei por me encantar (ainda mais) ao observar com mais atenção nossa metrópole. Queria compartilhar minha visão com o máximo de pessoas possíveis. Então, uma ideia concebida em 2014, quando recém havia completado meus dezoito anos e estava tão ou mais perdido do que nowadays, entrou em prática: fotografar.

Em recente visita ao Gasômetro, respeitando todos os protocolos de saúde, fiz essa foto e pude relembrar da importância da minha ida àquele lugar no passado

Tenho aquele dia fresco em minha memória como se fosse ontem, quando adentrei na Usina, no Gasômetro, para conferir uma exposição fotográfica de Sebastião Salgado, “Genesis” – a mostra trazia 100 (cem) fotografias que retratavam os locais visitados por ele e sua equipe, divididas em cinco seções geográficas: Planeta Sul, Santuários, África, Terras do Norte e Amazônia e Pantanal. Mesmo já tendo ido à Bienal do Mercosul, aquela exposição foi como um soco. Talvez ali, no momento em que meus olhos contemplaram aqueles registros, eu tenha percebido quão vasto e plural é o mundo em que vivemos. Abaixo, homenagens ao mestre Salgado.

A fotografia surge em 2014 mas somente cinco anos depois, no início de 2019, resolvi colocá-la em prática. Assim, no dia 24 de janeiro, nascia o perfil @mobpoalegre, a extensão dos meus olhos, que por sinal são míopes. Apesar disso, não tive um primeiro ano promissor. É tão difícil criar quando se está passando por um momento turbulento. Então, o tão esperado 2020 chega e o ciclo mais inesperado da minha vida se inicia – acho que não só na minha, mas na de todos. Como todo bom brasileiro, meu ano iniciou somente no Carnaval. Aqui gostaria de agradecer à Natalia, uma pessoa muito especial que foi de suma importância tanto para meu crescimento na fotografia quanto nas demais áreas. A tenho como uma grande inspiração que me motiva sempre a aprimorar a minha técnica. Voltando ao Carnaval, foi ali que comecei a levar a sério – mesmo sendo furtado naquele domingo e adquirindo outro espertofone no início de março. O aparelho novo chegou com incríveis quatro câmeras, confesso que parece muito com um cooktop (Samsung A51), e eu saí a fotografar. Mal sabia mexer nas configurações, a primeira selfie que acabou indo para as redes sociais parecia um dedão. Com o tempo acabei aprendendo, não que fosse muito difícil, mas foi determinante para meu desenvolvimento.

Sempre fotografando lugares e sem muitos elementos humanos, muito por conta da pandemia, acabei criando, em minha cabeça, uma espécie de álbum da quarentena, pois segui trabalhando normalmente durante todo o período, ficava praticamente sozinho no meu setor, salvo duas ou três pessoas. Foi bizarro ver Porto Alegre daquele jeito. Todos os dias pareciam 31 de dezembro, sem exceção. Por incrível que pareça, tenho absoluta certeza que vi um feno passando em algum lugar do Centro Histórico. Pouquíssimas pessoas nas ruas, todo o comércio fechado e nada de poluição sonora, tratava-se de um cenário apocalíptico. À época, era nítido o abatimento e medo daqueles que, por algum motivo, tinham que sair das suas casas. Antes, sem as máscaras, as pessoas evitavam até mesmo o contato visual. Depois, já mascaradas, tudo que elas podiam fazer era olhar umas para as outras e tentar descobrir quem estava mais temeroso com tudo que estava acontecendo. Foram dias melancólicos na Capital, isso que eu já estava tendo que lidar com outras coisas. Ali, naquele momento, passei a valorizar mais a fotografia, era como se ela fosse um amigo, como se cada foto conversasse comigo. Hoje, olhando os registos enquanto viro o feed de cabo a rabo, sou capaz de revisitar determinados momentos e até mesmo recordar de tudo que aconteceu ao longo daquele dia. Fotografia é isso, principalmente para quem a faz. Durante uma época em que os índices de melancolia aparentavam estar nas alturas, as fotos preto e branco passaram a ser maioria. Hoje, elas não são tão presentes por ter aprendido a valorizar mais as cores e o impacto visual que elas podem causar.

Capa do EP “Faith in Love” – que pode ser conferido clicando aqui

Falando um pouco mais sobre meus registros, um deles rendeu uma poesia feita por um amigo, o André Macali (@dekoliricista), enquanto alguns outros serão usados como capas de EP pela banda Yellow Boulevard (@yellowblvd). Reconhecimento sempre é positivo, principalmente quando vem de onde menos esperamos. Para finalizar, gostaria de dizer às pessoas que olhassem com mais carinho para tudo aquilo que as atrai, que as motiva. Que sejam capazes de se permitirem ousar. Ou ao menos tentar. Agradeço à equipe da Prid por ceder esse espaço para mim, do fundo do meu coração. Aos que me acompanham: obrigado, peço que continuem, por favor. Aos que ainda não me conhecem: sigam @mobpoalegre. Um grande abraço, cuidem-se.

#FicaEmCasa (se possível) – pois estarei observando todos vocês, sem exceção

Um comentário em “Retratos de uma Quarentena

  1. Baita trabalho Alexandre, as coisas são assim mesmo, um hobby prazeroso, quando menos se espera se torna uma profissão!

    Sucesso meu amigo e compartilha mais seus trabalhos conosco! 👊🏻👊🏻👊🏻

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