Análise O MENINO QUE QUERIA SER DEUS – Djonga

Pega a visão, o ano é 2018, a cena do rap implodindo de tanto hype após o tão citado ano lírico, Djonga chaverando em todos os feats que participava, a gurizada só esperando qual seria o seu próximo trampo (que seria lançado no fatídico 13 de março, que aliás, tem sido a data escolhida pro lançamento anual dos seus cds), os perfis da Pinapple saindo AAAAAAA. All aboard the hype train.

Eu lembro de ouvir o cd pela primeira vez indo de Cefão pra minha aula de Metodologia JurídicaZZZzzzZZZ e mano… eu tava só por socar um braquelo eleitor do NOVO, tá ligado? O trampo veio carregado de insatisfações, contradições, desabafos e autoestima. Aliás ponto muito importante nesse álbum, a autoestima do povo preto.

Enfim, bora lá gurizada que eu tô com um tanto entalado aqui sobre esse trampo. Este é mais um caso em que um produtor musical faz da primeira a última música do álbum (neste caso o grande Coyote) e particularmente eu curto pra caralho isso, acho que a sintonia do mc e produtor fala mais alto nessas ocasiões, sem falar que a história desses dois não é de agora.

Começando pelo nome do álbum, temos Djonga na sua ambição máxima, nome autoexplicativo. Numa entrevista dele pra Vice ele comenta sobre essa visão de si mesmo:

De alguma forma, eu sempre quis criar, manipular as coisas. Mas não manipular de uma maneira negativa — na verdade, às vezes, também, porque somos todos meio perversos. Eu sempre quis estar à frente do tempo, no controle do jogo. Sou meio assim, ambicioso. Aí, quando estávamos conversando no estúdio sobre um possível título, eu falei: na verdade, eu queria ser Deus — mas Deus são tantas coisas.

O teto que eu peguei dessa entrevista é que ele quis se afirmar enquanto criador, mas um criador que detém total controle sob sua criação, assim como um Deus. Foda.

Djonga também mostra sua evolução notável desde o seu primeiro álbum, trazendo refrões melódicos e um ritmo mais conciso. Uma reclamação recorrente do Heresia é que ele canta gritando e possui pouca variação no flow, o que torna maçante ouvir o álbum do início ao fim e este que vos escreve também acha isto, apesar de gostar muito dele.

Abrindo então temos ATÍPICO, trazendo um pacote recheado de punchlines feitos através de referências culturais, raiva total mano, daqueles que dá vontade de ir lanchar na porrada uns mano na manifestação B17 que rola no Parcão.

Destaque do primeiro verso vai para

Tão chato nas ideia
Que o racista me chama de macaco prego
Ou eu que sou escuro demais
Ou esse mundo que é cego
Contendo informações importantes
Então me chame de quadro negro
Ela diz que me acha chave
Fecho portas daquele passado negro

É como se cada rima do cara tu ficasse com aquele sorriso bobo, tipo “ahammm pode crer peguei a ideia”, ele leva muito jeito com referências, mano, por exemplo, ali na linha do quadro negro ele com apenas 2 linhas traça um paralelo com a sua negritude e sua sabedoria (assim como o quadro que o professor utiliza para passar seu conhecimento adiante). Subvertendo esses conceitos ele passa a visão da sua importância como negro na sociedade.

Curioso como essa linha me lembrou um verso do Inquérito em Versos Vegetarianos:

Igual a mim aqui quantos fi de mãe solteira
Que viu no rap ali um pai pra vida inteira

Djonga já entrou pro hall de referências do rap nacional, direta e indiretamente influencia a vida de jovens ao redor do Brasil, como se fosse um pai.

Seguindo pro segundo verso os destaques vão para:

Me pediram pa dar papo consciente
Num ouve nem pai e mãe, vai ouvir conselho meu?
Eu tô achando que é fácil ficar famoso
Nem conhecem Racionais, vai ouvir um disco meu?
O hater diz que eu caí no seu conceito
Pelo menos eu subi na vida
Olhei no espelho e encontrei Jesus, preto
Tipo Auto da Compadecida

&

Quero Sheron Menezes
Pra quem acha que bonito é Paris Hilton
A gente riu com isso
Todo padrão é vício, todo padrão é vício
Quando eu era menor, no quesito beleza eu ganhava a pior nota
Hoje as filha da puta que me deram zero, fala: “crush, me nota”

O começo do verso já contrasta com a minha lembrança da posição de pai que muitas vezes ele se encontra, é curioso o quanto pessoas com problemas paternos procuram essa figura naquilo que consomem.

No final do primeiro trecho ele faz uma referência a obra de Ariano Suassuna, inclusive é uma das maiores obras do português brasileiro, dá pra traçar um paralelo também com o fato de ele se olhar no espelho e enxergar Jesus com o nome do álbum, como se de fato ele realmente se visse como um deus. Foi vendo o filme que eu tive o primeiro contato com a ideia de Jesus não ser branco, lembro disso só explodindo minha jovem cabecinha de 6 anos. Foda.

Já o segundo trecho do verso que isolei fala sobre padrões de beleza (ahhhh padrões de beleza, isso por si só é assunto pra um semestre na faculdade). O padrão eurocentrista que bota a mulher branca, loira e magra em um pedestal imaculado tem assolado o mundo, diante disso Djonga exalta a deusa Sheron Menezes em contrapartida ao padrão disseminado. Seguindo no verso ele dá um desabafo (relatable pra caralho aliás) sobre rejeição e de como a fama lhe abriu portas que ao seu ver eram apenas um preconceito mascarado, como se ele tivesse ficado mais atraente com o sucesso e o dinheiro.

Partindo pro segundo som temos a OBRA PRIMA que atende por JUNHO DE 94. Ah gurizada, esse som pra mim é disparado o ponto mais alto deste trabalho, tem tudo aquilo que aquece meu coraçãozinho, egotrip, desabafo, reflexões, um beat delicioso (Aí Coyote, original GE) e um backvocal dele mesmo, sério, reparem como no final de cada palavra proferida tem um Djonguinha no fundo repetindo as palavras. Massa pra caralho. Sem mais delongas mano vamo pros destaques:

Tentando dar meu melhor na minha pior fase
Sabe como é, menor
Feridas se curam com o tempo, não com gaze
E quando ganhei meu dinheiro eu perdi a base
Logo eu que fiz gritos pros excluídos
Tiração pros instruídos
Chegar aqui de onde eu vim
É desafiar a lei da gravidade
Pobre morre ou é preso, nessa idade, ó

O som já chega cortante, abrindo cicatrizes, um desabafo sincero sobre a busca pelo ideal, ser capaz de alcançar as próprias expectativas. Sinceramente, esse começo da música, tem alguém que não consegue se relacionar com esse verso? Brabo demais.

Essa metáfora de desafiar a gravidade também é avançada demais, mano, pega a visão, cês sabiam que um jovem negro é assassinado no Brasil a cada 23 minutos? O que dá em média 63 por dia. MANO, 63! Levando em conta um mapa da ONU feito em 2012 cerca de 30mil jovens de 19 a 25 anos são assassinados no país e 77% deles são negros, velho, isso dá mais ou menos 23 mil (e diante de dados como esses eu ainda tenho que ler umas baboseira de que não existe racismo no Brasil). A carne mais barata do mercado continua sendo a carne negra e realmente chegar aonde ele chegou, vindo de onde ele vem, é literalmente desafiar a lei da gravidade. Ah é, cês podem conferir esses dados aqui 

O refãozinho desse som também gruda na cabeça, me pego cantando direto.

Segundo verso dá continuidade a essa trocação furiosa:

Antigamente enfrentar medo era fugir de bala
Hoje em dia enfrentar medo é andar de avião
Antigamente eu só queria derrubar o sistema
Hoje o sistema me paga pra cantar, irmão
Eu sou daqueles que dá o papo reto e vive torto
Assim é fácil, né?
Igual um médico fumante
Ou tipo querer descansar e continuar de pé

O começo do verso já corrobora com o que acabei de dizer sobre essa chacina desenfreada contra o povo negro. Ele mostra como ascendeu socialmente, mostrando que seus medos mudaram, aliás, é triste como a emancipação dos negros só parece surtir efeito através do dinheiro, e mesmo assim não é algo 100%.

Enfim, seguindo no verso temos uma forte contradição, é como se Djonga se visse como um revolucionário no começo da sua carreira porém o sucesso fez com que ele aceitasse condições que provavelmente o seu antigo abominaria sabe? (Uma vez tweetei algo relacionável). Certamente seria um conflito de ideias com o Djonga do tempo de Corpo Fechado. As linhas subsequentes só reforçam a contradição introduzida no começo.

Porém ao meu ver é no terceiro verso que essa música me pegou de uma maneira:

Tirei várias pessoas da depressão
Mas não consigo dar um só riso
Seu reflexo é mais cruel que a imagem de qualquer um
Disso aí morreu Narciso
Perdido por camarins em algum olhar lascivo
Pra levar ela pro quarto eu fui conciso
E agora ninguém vai chorar meu choro
Mas até quem eu não conheço quer sorrir o meu sorriso
Tive que ouvir que eu tava errado por falar pro cês
Que seu povo me lembra Hitler
Carregam tradições escravocratas
E não aguentam ver um preto líder

De cara já veio na mente a cena do diário de Rorschach, aliás, assistam Watchmen, façam esse favor para vocês. Voltando, imagina carregar esse fardo diariamente? Chave. Em seguida ele cita o mito de Narciso em contraste com os malefícios de se alimentar o próprio ego, que também me trouxe a tona um verso do Rashid em Ruaterapia:

Pra uns, o holofote é pior que o ópio

Assim como Narciso morreu ao ficar vidrado no próprio reflexo, seu ego pode lhe tirar tudo.

Descendo no verso temos uma referência direta ao hino “A Amizade — Fundo de Quintal” e não por nada não mas você tem o dever moral de conhecer esse som, caso contrário pode indo ouvir AGORA! Enfim, uma metáfora pra explicar que quando sua luz se apaga até sua sombra te abandona, não é mesmo? Porém é só voltar a brilhar que os mosquitos voltam a orbitar.

Encerrado o trecho temos uma referência a ele mesmo, no seu perfil da Pineapple — Olho de Tigre (que é um puta som viu?? também é pra ir ouvir se não conhece) cujo Djonga abre com:

Um boy branco, me pediu “high five”
Confundi com um “Heil, Hitler”
Quem tem minha cor é ladrão
Quem tem a cor de Eric Clapton é cleptomaníaco

O trocadilho com Clapton e cleptomaníaco é nada menos do que sensacional. Logo depois ele encaixa duas linhas autoexplicativas sobre a dívida histórica e o racismo enraizado. Sempre lembrando que a escravidão “acabou” há menos de 150 anos nesse país (também conhecido como ontem) e essa parada é muito real mano, a sociedade ainda carrega tradições escravocratas e ver negros em posição de poder continua incomodando muita gente.

Eu devolvi a auto estima pra minha gente
Isso que é ser hip hop
Foda-se os gringo que você conhece
Diferencie trabalho de hobby
Os irmão me ofereceram arma
Ofereci um fone
Cada um faz suas escolhas
Pra não passar fome
Pro destino ofereceram a alma
Foram sujeito homem
E quando eu penso em julgar
O silêncio me consome

Aqui mano, pra mim vem o ápice do som. Eu arrepio toda vez que escuto isso. TODA. FODENDO. VEZ. O beat até para de tocar pra dar um destaque pro que está sendo proferido.

Representatividade é uma parada absurdamente importante e eu só fui me dar conta disso há pouco (afinal né, reconhecer coisas que tu sempre tomou como dadas leva tempo) vivemos em épocas aonde parece que é um crime o preto adquirir autoestima e sobre isso eu cito a obra prima do Thiago Elniño — Pedagoginga A escola, a mídia, as produções audiovisuais, basicamente esse assunto passa batido na maioria dos lugares.

Depois vem uma das linhas mais relatable de todas, eu tive uma cadeira em direito na qual eu fui perdidamente apaixonado, ela se chama Criminologia e basicamente lá a gente aprende o porque de pessoas cometerem crimes (um puta salve pra deusa Vanessa Chiari que ministrou essa cadeira). No fim das contas eu só dei uma forma mais concisa e organizada pros conceitos que criei a partir da minha vivência, eu venho de um lugar aonde metade dos meus amigos de infância escolheram a arma ao invés do fone pra no fim das contas não passarem fome. Essa porra mexe demais comigo mano, mundo injusto do caralho.

Depois disso rola um beat switch e ele só começa a cuspir umas parada entalada, claramente direcionada a haters. No fim do som vem uma das montagens mais geniais que já ouvi, só trechinhos de uns fadão de vagabundo. Avançado demais, homenageando Racionais, Sabotage, Criolo, Emicida, Filipe Ret e ele mesmo. Minha última observação pra esse som é que o nome dele faz referência pra época que o Djonga nasceu, coisa corriqueira no rap (por exemplo Jay-Z e J-Cole tem sons com a mesma ideia no nome).

O próximo som se chama UFA e é um trapzão BRABO, puta que pariu. Tem o feat mais pesado desse álbum, Sant e a revelação desse álbum a.k.a Sidoka. Na moralzinha, olha como começa:

Um dia me perguntaram porque engordei tanto
Mano, eu to comendo dinheiro
O capitão do meu time, não capitão do mato
O capetão tá na curva com a caneta e o contrato, não assinei

USGURI SÃO DEBOCHADO DEMAISSSSSSSSS PAPAI, sempre que escuto essa linha eu dou um risinho de canto, na moral, como falei ali em cima sobre a emancipação do negro através do dinheiro também se mostra aqui através dessa metáfora.

Provavelmente isso não tem a ver mas eu não consigo mais ouvir “capitão do mato” e não lembrar do otário do Holiday. Enfim, dessa última linha que isolei eu consigo associar o capeta com o crime, como se a todo momento fosse uma opção “viável” pro Djonga, sempre ali disponível, esperando o seu comprometimento.

Som de gastação pura, autoestima destilada ao melhor estilo de comparações atrás de comparações, tipo aqui:

E que não se peita minha banca
Cês já tão igual Cesão, careca de saber
O mano entrou de salto alto, no entanto
Nós até sem chuteira, é só gol do meio de campo
Os menino é mil grau, espírito livre
Tipo que empina moto com dois pé no banco

Ah é, cês tão ligado no DonCesão (mas você não) né? Fundador da Ceia, outra banca do Djonga, que como cês devem ter notado é careca. Nesse som temos o menino que queria ser deus em sua essência, autoafirmações criativas, com uma punchline aqui e ali, sempre deixando sua assinatura.

Liga pro Sidoka pra trazer aquele flow
‘Quele flow, ‘quele flow, ‘quele flow
Liga pro Sidoka pra trazer aquele flow
‘Quele flow, ‘quele flow, ‘quele flow

E é após essa convocação que o Sidoka cola pesadamente no som, sério, que flow. O bicho representou demais cadenciando em cima da batida. Hoje em dia é impossível falar sobre trap e não citar ele. Aliás, UFA só existe por culpa dele, aham meus caros, a braba já havia sido lançada.

Fechando o último verso temos Sant que mais uma vez colou no feat de maneira impecável, é sério, eu nunca ouvi UM feat medíocre dele, que homem. Sempre com aquela voz profunda e com uma certeza ímpar.

Curto muito como ele abre o verso:

Óh, quem aprende a escrever
Conhece o peso da caneta (Pois é)
O poder, a dor, o prazer, o que for (O que for)
O que sair dessa gaveta (Aham)
Entre os milhares de olhares (Milhares de olhares)
São milhões de frustrações (Milhões)
Todo orgulho e migalha engolidos (Todo orgulho e migalha)
Em trilhões de prestações (Aham)

Afirmando que a responsa de viver das letras é bem mais complexa do que aparenta, aliás, cês já pensaram o reflexo das atitudes de vocês pras pessoas da volta? Imagina a responsa de viver de rap, a arte sempre se torna maior que o artista e é impossível controlar o seu impacto depois de criada.

Sobre as linhas de frustrações eu vou ilustrar essa metáfora com:

Puta colocação atual mano, quanta frustração acumulamos na vida por culpa do consumismo desenfreado sob a hegemonia do capitalismo em busca de provar a nossa individualidade? Sempre engolindo migalhas em nome dessa busca. Foda.

Dando sequência então temos 1010 que é um som bem mais descontraído, que fala sobre essa conexão que ele teve com uma mulher. Mano, o beat desse som É FODA, PUTA MERDA! Sem falar que tem o melhor refrão do álbum, esse bagulho só gruda na mente que tu vai se pegar cantando em momentos inoportunos. No final o som tem uma tradução da carta de 2pac, escrita em 1995 quando ele tava na cadeira, pra Madonna, o que me faz crer que essa mulher que Djonga se refere no som seja branca. O começo do som também dá uma reforçada nisso:

É o açúcar cristal que adocica minha vida
Tenho sonhado com ela desde que eu a conheci

As melhores metáforas e sacadas dele tão nesse som, gostoso demais de se ouvir, vou isolar uns aqui que chamaram minha atenção:

Que nunca chega a fase das rapidinha
Só vou te deixar de lado se for pra fazer gozar

Sempre esboço um sorriso com essa.

Me disse que eu não passo segurança
Infelizmente eu não sou cinto
Tô mais pra banco, aí você senta
Eu fecho os olhos e só sinto

E é bem bom só fechar os olhos e sentir né?

Disse que meu olhar te encantou
É que eu tava olhando pro futuro
Pensando em rimas tipo Future
É por isso que eu sempre faturo

Na moralzinha mano, não posso com esse homem.

Meu último destaque antes de falar sobre a carta fica para:

Cê não precisa de mim para nada
Eu não preciso de você também
Pra ser sincero, eu quero dominar o mundo
Eu vim só perguntar se você vem

Hmmmmmmmmm, essa aí foi reta hein!? Uma das maiores verdades sobre relacionamentos que li nesses últimos tempos, não precisamos de ninguém gurizada, não caiam nessa de dependência amorosa, issaê é ponte pra relacionamentos abusivos.

Partindo pro trecho da carta que Djonga cita temos isso aqui:

Não sei se você consegue me entender
Mas pra você, ser vista com um cara preto que nem eu, não afeta em nada sua carreira
No máximo vai fazer você parecer mais aberta, mais aventureira
Pra mim, talvez eu vou tá decepcionando metade das pessoas que me colocaram aqui
A verdade é que eu nunca quis te machucar
Não sei se cê consegue me entender
15 de janeiro de 1995
Quatro e meia da manhã
De: Tupac
Para: Madonna

Podemos concluir aqui que essa palmitada foi um motivo chave para o término, já que essa representatividade era de suma importância para 2pac, botando em contraste com o som podemos concluir sobre o tom de pele da dita cuja.

Próximo som se chama SOLTO e tem participação do Hot. Tem um saxofone massa que encaixa bem com a batida. Confesso que esse som me parece tipo uma continuação, um sucessor espiritual de Geminiano, do primeiro álbum do Djonga. Também fala sobre relacionamentos, de uma maneira conturbada, egoísta e até abusiva num certo nível, se liga como ele abre o som:

Te vi curtindo minhas fita no Insta
No mesmo instante, desejei você na minha estante
Não em stand by, nós num stand hype
Numa convenção de tattoo
Não faltou tato, eu provei seu paladar
Você, umas pala dá, quando bebe
Eu, umas merda fiz pelo ego, deby
Chegamos ao fim, feito Derby
Que a tia fuma sem pensar no pulmão
Um Show de Truman, vivemos juntos
Um milhão de traumas criamos juntos

Pegaram a visão? Conturbado é a palavra pra essa relação retratada, acho esse verso bem autoexplicativo. Vou ressaltar aqui o “eu, umas merda fiz pelo ego, deby” que essa porra é relacionável pra caralho. Achei muito massa também o jogo de palavras em tattoo e tato, paladar e pala dá, deby e Derby. Ele sempre gasta nessas.

Já quanto ao milhão de traumas criados juntos… Porra mano, foda essa também, infelizmente é um rolê frequente em relacionamentos (foda duas pessoas que precisam de terapia se juntarem sem se darem conta disso). Enfim, essa linha reforça meu teto da relação abusiva que é retratada nesse som.

No refrão temos:

Tira a mão de mim, quero te soltar
Vou fazer assim que é pra eu não te machucar
Vida tá corrida e eu nem tô na de te escutar
Te prometi o mundo e adivinha, eu nem vou te dar

Promessas vazias, a vontade iminente de largar tudo e a urgência da vida pessoal, junte tudo isso e temos uma receita infalível pra um término cuja única questão delimitante é o tempo. Gostaria de dizer aqui também que amor não é ficar engolindo todo tipo de sapo numa relação em nome dos 2, muitas vezes a maior demonstração de amor é saber a hora de ir embora antes que os traumas contaminem tudo.

Bem, depois temos o verso do Hot e eu gosto muito desse cara, o bicho leva MUITO jeito com jogo de palavras (escutem o cara, já existe uma cota de trabalhos dele, aqui vai um dos meus favoritos) pega a visão:

Fiz essas linhas a mão
Pra te dar de presente, juro
Cê leu as linhas da mão pra prever o futuro
Cigana, quem acha que sabe tudo, se engana
Põe essa na conta e eu nem tô falando de grana
Fez meu mapa astral, não sei onde isso fica
Lua em escorpião, vai saber o que significa
Ela é de lua e eu tô no veneno
Achei que era só fogo no rabo
Se eu pudesse voltar no tempo, te colocaria no altar no templo
Mas nosso amor é pagão
Exige sacrifício, num é só fazer oração
Ela me deu o bote porque sabe que eu não sei nadar
Eu desci o rio, agora ficou longe pra voltar
Tem sangue frio, espera a corrente levar
Quanto mais puxa, menos dá pra respirar

Cigana e se engana, põe na conta e grana, fazer um mapa e mesmo assim não saber aonde fica, lua em escorpião e ela ser de lua enquanto ele tá no veneno, voltar no tempo pra te colocar num altar no templo porém o amor é pagão que exige sacrifícios, não é só fazer oração (e por aqui leia-se um oralzão, quem nunca ouviu o “ajoelhou tem que rezar?” KSPOAKSPOAKSO). Enfim, cês pegaram a visão né? O Hot exala criatividade nos seus versos, sempre tô sorrindo quando escuto o cara.

Tem mais um destaque que gostaria de dar no verso final, pra ressaltar o teto do som sobre todo esse caos em forma de relacionamento:

É que eu minto muito, meto muito, cedo muito, penso muito
Tento quase nada se vejo que não deu bom
Confio pouco, frio é pouco, o cio tosco
É o que me fez deitar na morte no edredom
Já tive mulheres de todas as cores
Te traí, mas sempre levei flores
Sou sem massagem, mas mesmo assim, curei as suas dores, é
E cê ainda quis me machucar

Esse verso é a confirmação de tudo que falei sobre a visão do som, aqui temos mais um rolê quebrado pelo machismo enraizado, temos aqui alguém inconformado com seus desejos egoístas , a dificuldade de manter a honestidade, a impulsividade e a apatia quanto a se dedicar pro relacionamento que vive. Prestem atenção no verso de “Te traí, mas sempre levei flores” e pensem em quantas histórias vocês já não ouviram de casos similares, o homem, pai de família, aquele que provém o sustento e por isto supostamente faz com que ele ocupe uma posição superior na hierarquia do lar, acaba traindo sua companheira e tenha justificar seu desvio de conduta com base nas migalhas de gestos que fazia. Brabo.

No sexto som do álbum temos aquele que atende pela alcunha de CANÇÃO PARA MEU FILHO e mano, esse som passa uma visão braba de paizão do Djonga, ele chega bem íntimo, emotivo, esperançoso e suas preocupações com a chegada do Jorge.

Aqui tem um trechinho da entrevista pra Vice (que você acompanhar em sua totalidade através deste link)

Mudou toda a minha dinâmica, meu jeito de encarar a vida. E isso aconteceu tudo ao mesmo tempo que a minha vida profissional tava dando uma virada gigantesca. Ao mesmo tempo que eu tinha que lidar com a fama, trabalhar no rap, ganhar dinheiro, eu tive que aprender a ter responsabilidade, a guardar esse dinheiro, por causa de mim e, principalmente, do meu moleque.

Dizem que virar pai transforma o homem e eu acredito que esse som seja um resultado direto disso. Vamos para os destaques:

Quando cê veio eu não sabia o que ia ser de nós três
Mas já sabia que ia mudar tudo
Eu tive medo, mas fingi coragem
Quis passar confiança
Mas que muleque passa confiança?
Inocente eu né?
Pagando de foda pra ela, por dentro sem fé
Fazendo conta com 400 conto
Dizendo que ia dar pra sustentar
Sua mãe chorando sem entender nada
A noite é longa, e a manhã faz o choro passar
Eu prometi que ia dar tudo certo
Mas só que a noite durou muito tempo

Tempos difíceis forjam homens fortes, acredito que essa frase sintetiza bem esse começo do som, as cobranças batendo, as expectativas surgindo, o ato de fingir coragem numa tentativa de não surtar. É o corre, não adianta.

O refrão desse som também é massa pra caralho, se liguem:

Meu pequeno Ogum
Me ensina a batalhar
A vitória do seu lado é uma escolha
A vitória do seu lado é uma escolha
Meu pequeno Ogum
Me ensina a batalhar
A vitória do seu lado é uma escolha
A vitória do seu lado é uma escolha

Ogum é o orixá ferreiro e senhor da guerra (por isso o “me ensina a batalhar”) e que no sincretismo religioso que rola no catolicismo Ogum = São Jorge. Lembrando que seu filho se chama Jorge, pegaram a referência? Massa pra caralho né.

Tem mais uma curiosidade na real, Ogum é filho de Oduduwa (uma das divindades primordiais), dá pra fazer uma conexão com isso e o nome do álbum.

No segundo verso meu destaque vai pro comecinho dele:

Sempre respeite essa que te deu a luz
Mais forte do que cê imagina
E pensa bem o que cê faz com mulher
Outro dia te vi saindo de dentro duma vagina
Sua vó já nem quer mais saber de mim
Só liga pra me perguntar como cê tá
Tem nem um ano e já roubou a cena
Igual eu nos feat, melhor num convidar

Eu acho muito massa como ele engatou umas linhas sobre respeito materno, respeito pelas minas e uma piadinha com vagina. Depois temos a vó coruja que só quer saber do netinho (ah como eu vi isso em casa hahahaha) e fechando o trecho temos aquela pagadinha com respaldo, afinal cansei de ouvindo uns feat dele que simplesmente tomaram conta do som, vide Black Tie, Atleta do Ano Remix, A Pior Música do Ano e etc.

Enfim mano, esse som é emocionante e toca o coraçãozinho.

Dando sequência temos outro som do caralhíssimo, CORRA que leva o mesmo nome da obra prima de Jordan Peele e que por sinal também é sampleado em cima de uma das músicas da trilha sonora do filme (aliás esse som tem um clipe fenomenal, pode dar um t aqui e ir assistir, é mandatório)

Temos um feat da Paige e ela vem melódica demais nesse som. O teto dessa música basicamente é o racismo velado e o dificuldade do homem negro em simplesmente ter que lutar o dobro pra ter acesso ao mínimo.

O som abre com esse verso de 1 tonelada falando sobre a escravidão no século XV:

Éramos milhões, até que vieram vilões
O ataque nosso não bastou
Fui de bastão, eles tinham a pólvora
Vi meu povo se apavorar
E às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar

Ah o meu, essa porra arrepia até o último dos meus pelos, o bicho condensou uma parada muito complexa nesse verso épico, esse som é punchline atrás de punchline, tem que escutar com um capacete, ave maria.

Autoestima é tipo confiança, só se quebra uma vez
Tô juntando os cacos, não Barcelos, nem Antibes
Sou antigo na arte de nascer das cinza

Autoestima é um bagulho foda, meio que ou tu tem ou tu não tem, e geralmente não se tem. O branco há séculos vem suprimindo a autoestima do negro (sempre lembrando que dívida histórica é real e há apenas 128 anos a escravidão foi “abolida” no Brasil)

Se recuperar disso leva tempo, um tempo substancial aliás, e nesse corre temos Djonga juntando seus cacos e ajudando a reconstruir a autoestima do seu povo.

Vocês são a resposta porque tanto Einstein no morro morre e não desponta
Vocês são o meu medo na noite
Vocês são mentira bem contada
Vocês são a porra do sistema que vê mãe sofrendo e faz virar piada, porra
Eu vi os menor pegando em arma, pois cês foram silenciadores
Eu vi meu pai chorando o desemprego, desespero
Pra que isso, mano?

Aqui é raiva destilada, e com razão mano, pra citar rapidão um exemplo aqui, fuzilaram um carro com uma família dentro, “confundida” com assaltantes… 80 tiros gurizada, 80 tiros, vocês tem noção? Não preciso nem dizer a cor da pele do pai de família, músico e que estava indo para um chá de fralda. Indignação e impotência é mato. Pra que isso, mano?

Povo preto tá morrendo a horas e sem direito a retaliação, seja criança voltando uniformizada na escola, seja trabalhador com guarda chuva na parada, seja uma vereadora lutando contra as milícias, seja uma gurizada dando um rolê de carro pra desopilar desse sistema que é uma máquina de moer pobre. Os bicho tão morrendo, e tão indo sem pudor algum.

Essa sujeira toda me lembra uma puta sonora do Amiri, Um Dia de Injúria por favor escutem.

Se pá são a causa da seca, e da cerca que nos separa
Depois nos acusam de tá dividindo demais
Já se apropriaram de tudo
Minha mente me diz: “get out, Gustavo, corra!”
Você sabe o mal que isso faz
Pra eles nota seis é muito
Pra nóis nota dez ainda é pouco
Pros meus qualquer grana é o mundo
Pros deles qualquer grana é troco

Na moralzinha, esse som é sem massagem, é trocação do começo ao fim, de se ouvir fazendo aquelas careta de “puta que pariu mermãããão”. Seguimos nesse verso com apropriação e o teto da correira que é pro negro poder se afirmar como alguém pertencente à sociedade

O verso sobre as notas lembrou o lendário verso do Brown em Da Ponte Pra Cá:

Minha meta é dez, nove e meio nem rola
Meio ponto a ver, hum e morre um
Meio certo não existe, truta, o ditado é comum

Ser nota 10 ainda não é suficiente sabe? Cê pode ter vencido na vida que as pessoas ainda vão te olhar torto justamente pela cor da sua pele, e é esse teto que ele passa através dessas metáforas.

Esse som é sensacional, na moral. Avançado demais.

O 8º som se chama ESTOURO e o nome não é apenas sugestivo, rola um feat com a diva Karol Conká e esse som basicamente fala sobre autoestima, conquistas e os desabafos de quando a vida era muito mais dura, se liga:

Karol, tô indo atrás do meu e te quero lá
Tomar Chandon que eu cansei de Pérgola
Minha mãe colar de pérola
Já que desde menor ouvi: “pera-lá”

Pérgola é uma marca de vinho barata, pique Molon e Polo aqui em PoA.

O que agrada às garota é o “lálálá”
Boy de capuz pra mim é “KKK”
Nada pode assustar os preto
Coragem e coração começam com cor
Óh, hoje corrente só de prata

Essa referência do lálálá é uma arriada, a Karol tem um som com esse nome que fala justamente sobre o oral nas minas e como elas gostam. A linha sobre KKK me lembrou Boa Esperança do Emicida aonde ele diz:

Tempo doido onde a KKK veste Obey

Coragem e coração começam com cor também é um verso do caralho, na hora que me liguei fiquei naquele momento de “bah ahammmmmmm” e sorrindo.

Revista pra mim era polícia
Até eu ganhar a votação da Rolling Stones
Meta é ficar mais famoso que Beatles
Sem compor Sgt. Pepper’s Lonely

Olha esse caralho de verso mano, te falo em ascensão social tá ligado? Uma hora era open de enquadro e agora é vencedor de enquete em revista conceituada. Que orgulho cara.

A Conká também chega forte nesse som, com rimas equivalentes a de Djonga, trazendo o seu lado da moeda no relato.

Um verso que eu gostaria de destacar, que chamou mais a minha atenção na voz dela foi esse:

Oh na na, já fui egocêntrica, falocêntrica
E eu centrifugo tudo isso
Vou me construir de novo
Tô dando orgulho pra minha quebrada

Um desabafo profundo esse, mostrando que os artistas, por mais conscientes que possam ser eles ainda são seres humanos, com seus defeitos e crenças, ressaltando que a desconstrução é um processo e se hoje estamos vendo uma boa versão deles é porque ela foi lapidada ao longo dos anos com base em suas vivências.

Partindo pro penúltimo som do trampo temos DE LÁ e sendo sincero eu não tenho muito o que dizer desse som além de que é um canto exaltando a religiosidade dos povos afro-brasileiros. Um som recheado de figuras divinas.

Fechando o álbum temos ETERNO e eu gosto muito desse som, principalmente pelo beat. Coyote gastou demais sampleando Contato Com o Mundo Racional do eterno mestre Tim Maia.

Esse som tem um tom de conclusão, uma egotrip brincando com a dicotomia do erro e acerto, homem e deus.

O som já abre com o refrão:

E o mundo tem sido pequeno demais pra nós, pra nós
E a vida tem dado conquista demais pra nós
E o mundo tem sido pequeno demais pra nós, pra nós
E a vida tem dado conquista demais pra nós

Bem autoexplicativo né não? Temos aqui um Djonga pós Heresia aonde consegue ver os frutos do seu trabalho prévio.

Meus destaques pra esse som vão pro segundo verso dele:

Só quem tem coragem pro início
Sabe o peso que é parar
E só na hora que a canoa vira
Que você lembra que sabe nadar, é
E eu crio e destruo, prometo e não cumpro
Pareço e destoo, eu sujo e não limpo
Sou humano, escondo meus erros com meu capuz
Sou humano, e o último a sair apaga a luz

Traduzindo seu perrengue através de rimas Djonga nos mostra o fardo que carrega, ao mesmo tempo que reconhece seus erros enquanto humano falho.

A lei do crime é “aí se fala, aqui se mata”
Em “Esquimó” eu tentei avisar pra ti
E eu superei isso tudo
Eu venci o fim, eu venci a morte
E eu superei isso tudo
Eu venci o fim, talvez eu tenha sorte

Antes de falar sobre o conceito de vencer a morte, queria falar da referência que Djonga faz a si mesmo. Não é de agora que ele fala da violência policial e do assassinato de jovens da periferia. O papo que ele lançou em Esquimó foi:

Hoje no jogo bandido e polícia
Compare, o morro tem sua própria polícia
Bom ou menos mal, assim, afinal
É, pretos precisam se defender
No final, não temos de quem depender
Por sinal, só temos quem vai nos prender

O estado nunca foi pelas minorias, e a truculência da polícia militar só corrobora este fato.

Bem, seguindo ele fala sobre superar a morte, coisa que eu acredito que só concretiza depois que tu atinge um certo grau de relevância em determinado assunto. As pessoas só morrem de verdade quando são esquecidas e neste caso Djonga ultrapassou a morte através da arte, se ele morrer amanhã ainda será lembrado como referência no rap.

Também tem a passagem da bíblia no livro de João, capítulo 11, versículos 25 e 26:

Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá;
E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?

O filho de Deus posto sob a ótica do menino que queria ser deus… dá pra fazer essa ligação também.

Eras isso pra essa segunda ó meus amantes de rimas e batidas. Terminamos mais um dos clássicos da nova geração, e na minha humilde opinião o melhor álbum dele até então. Não se esqueçam de abrir os links, principalmente aqueles que contêm músicas, ótimo pra expandir o repertório. No mais continuem se cuidado e ficando em casa, PoA voltou a ter aumento nos casos e isso é um reflexo direto do afrouxamento dos cuidados e isolamento.

Beijos nos corações de vocês, até semana que vem.

Publicado por William Sandino

Alguém que adora dar pitacos sobre o que acha que entende

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