Análise Esú – Baco Exues do Blues

Salve sandinistas, eu tava há horas pra falar um pouco sobre este primeiro trampo do Baco.

Massssssssssssss antes um pouco de contexto porque esse álbum já tem 3 anos e ultimamente tem acontecido muita coisa na cena do rap brasileiro. O ano é 2017, o tão citado ano lírico, época tão hypada pós Sulicídio (som que simplesmente fez com que o Brasil aprendesse que existe rap no nordeste e conhecesse Diomedes Chinaski e Baco Exu do Blues)

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Como é que você nunca ouviu falar nos bruxos lendários do norte?

Época também do estouro absurdo da PineappleStormTV no youtube (que é uma collab entre a Pineapple Supply e o Estúdio Brainstorm) que lançou sucessos absolutos como Poetas no Topo, os Perfis e Poesia Acústica.

Enfim, grandes nomes do rap estavam a todo vapor nessa época e Baco era um dos cabeças que já tinha uma legião de fãs mesmo sem ter lançado um álbum. Sons como 999, Poetas no Topo 2, Sujismundo, Tropicálica e seu EP OLDMONKEY já estavam no repeat pelas redes sociais.

Então Diogo Moncorvo, a.k.a Baco, com seus problemas de dicção, desbocado e lascivo, anuncia Esú com essa capa que é além de sensacional, sério, fazendo um jogo de palavras com o maior símbolo religioso (e a maior vítima de whitewashing) deste mundo, nosso mano Jesus Cristo. A releitura com uma figura de um dos principais orixás da cultura africana, com um negro de braços abertos em frente a quase tricentenária Igreja do Bonfim em Salvador (sua terra natal) é nada menos do que genial.

A produção deste trampo é 90% comandada pelo Nansy Silvvs e uma produção do Scooby na primeira faixa com os scratches mais afiados deste mundão feitos por ele, o lendário KL Jay.

  • Pausa pra citar que Nansy tinha apenas 20 anos e Baco tinha 21 em 2017

O álbum é uma boa mistura de trap com boombap, com referências a sons e melodias nordestinas, como o carnaval de rua, maracatu e raízes africanas, como cânticos em Iorubá e batuques dignos do candomblé.

Em uma entrevista pra Genius, Baco define seu álbum como:

O álbum é um indivíduo em uma transição eterna. Ele passa por diversos conflitos. Sentimentos, no caso. Ele passa pelo sentimento de onipotência e da depressão, que são dois opostos. Ele vai da auto-afirmação, da auto-confiança. E aí a trilha dele é até ele se achar. O disco é mais sobre o quão conturbado é a vida é. O quanto em algum momento você está no alto, no outro você está no baixo. […] O conceito é bem isso. O conceito é essa questão do tipo, meio que.. Uma frase que sintetiza a capa do CD: “Deus só tem forças se a gente acreditar nele, e a gente só tem força se acreditarmos em si mesmo. Então, nós somos deuses

E o rolê é bem esse mesmo, autoafirmação do Baco como homem, como rapper, como alguém que possui um lado romântico, um lado carregado pelo ódio e por último como alguém depressivo.

Partindo pro primeiro som, temos Intro com a colaboração que citei ali em cima. Como toda boa faixa introdutória, ela dá o tom do álbum. Uma síntese sobre o trabalho, a sua relação com a própria humanidade e divindade, sua dualidade sendo posta em cheque. O início do som é uma narração do radialista Paulo Roberto, retirado diretamente deste som da Orquestra Afro-Brasileira (aliás, escutem OAB)

Este ritmo binário
Que é o alicerce principal de quase todos ritmos
Da canção popular do Brasil
Veio importado de longe
Das placas ardentes da África
Onde o sol queimou a pele dos homens
Até carboniza-la em negro, negro, negro
O compasso tão simples que reproduz em tom grave
As batidas do próprio coração
Atrevessou o atlântico sob a bandeira dos navios negreiros
Servindo para marcar o andamento de melopéias
Que vinham dos porões em vozes gemidas e magoadas

Brabo né? Encaixa cruamente na proposta do álbum, logo após a narração a voz rouca do Baco já entra dizendo:

Somos argila do divino mangue
Suor e sangue
Carne e agonia
Sangue quente, noite fria
A matéria é escrava do ser livre
A questão não é se estamos vivos
É quem vive

Olha aí a questão da dualidade sendo trabalhada a cada verso, botando sempre dois objetos em questão.

Ao abrir o verso com somos argila do divino mangue acredito que ele esteja referenciando o quanto somos maleáveis perante as influências externas, uma maneira de dizer que somos moldados por elas mesmo sendo originárias do divino mangue.

E bem, sobre a questão não é se estamos vivos, é quem vive total autoexplicativo né, vivemos tempos aonde a cada 23 minutos um jovem negro é morto no Brasil. Chave.

Aliás, esse álbum parece ter refências a Da Lama Ao Caos do Chico Science & Nação Zumbi (que também é outro trampo brabo).

E essa altura do enredo
A Asa Branca dança no lago do Cisne Negro
Pretos de terno sem ser no emprego
Meus pretos de terno em festas que não sejam enterros

Ô, na moralzinha, esse aqui é furioso. Não sei dizer se a Asa Branca que ele cita é a música do Luiz Gonzaga (que aliás é um puta som) porém o que eu peguei aqui é a reivindicação do espaço ocupado pelo povo negro, tipo, o jogo de palavras entre asa branca e cisne negro, o empoderamento dos pretos estarem de terno sem ser no emprego ou em enterros. Livres para dançarem a seu bel prazer.

Meu fim é doloso
Jovem preso num espírito idoso
Medroso, me jogo no mar
Aquário de Iemanjá
O sol nasce no Rio Vermelho
Me olho no espelho embriagado
De volta ao centro
A poesia habita o trago
Observo o estrago do silêncio
A boêmia em seu maldito vício
Parei no precipício do ultimo maço
Último abraço
Minha imaginação, meu asilo

Esse aqui eu diria que tá mais pra um desabafo, aonde ele nos mostra diversas coisas, tipo, que se sente preso a um espírito idoso, que possui medos, hmmm esse me jogo no mar aquário de iemanjá eu abstraí como uma metáfora pra choro mas não sei não. Se olhar no espelho, embrigado e de volta ao centro certamente deve representar o ínicio da sua rotina e por último temos o combustível para as suas poesias, o trago, o silêncio e o cigarro.

No final do som rola uns scratches furiosos do KL Jay, com samples de 999, Mil Faces de Um Homem Leal e o Coral de Filhos de Oxóssi.

Segundo som se chama Abre Caminho e bem, o nome já é autoexplicativo né não? Primeiro álbum do Baco, abrindo a cena do rap pro nordeste e ainda usando o nome de Exu (a entidade mensageira entre os orixás e os humanos).

No site do Genius tem esse anexo escrito pelo Baco sobre o som:

Assumo a condição de Exú, orixá que abre os caminhos, sem perder seu lado completamente humano ao temer a morte. Retrata uma saudação, um pedido de respeito. Torna-se vitorioso em meios às condições sociais adversas impostas ao povo negro

Um trapzão brabo, com um digno refrão de bate cabeça tá ligado? Curto muito esse som, que aliás começa com refrão estourando

Ih, que que eu tô fazendo aqui
Mais de 7 dias sem dormir
Da lama ao caos, Nação Zumbi
Não foi pedindo licença que cheguei até aqui
Ih, que que eu tô fazendo aqui
Mais de 7 dias sem dormir
Da lama ao caos, Nação Zumbi
Não foi pedindo licença que cheguei até aqui

Olha aí citando Nação Zumbi logo depois de dizer que não foi pedindo licença que chegou aonde chegou. Isso de cara me lembrou Então Toma do mais brabo de todos, também conhecido como Emicida, na qual ele diz:

Aqui cê tem que pedir desculpa por ter feito mais que os outros

Afffffffffffff cehloko, bem, ‘kelas coisas néam, jovem negro, periferia, nordeste, fazendo rap, é o mundo contra você mano, o caminho pro sucesso é sombrio e cheio de pedras e não é pedindo licença que vai te permitir chegar no topo.

Dá licença deixa o karma da cena passar
Não entra na roda punk sem pedir pra Exu
Não entra no mar sem pedir pra Iemanjá
Desrespeite a fé dos pretos, saiba porque eu sou Exu
Meus irmãos são mundos vi vários rodar

Confesso que concordo muito quando ele se declara como o karma da cena, afinal, lá vem outra citação dele, o homem, pode entrar Emicida em seu som Triunfo:

Mas sou tudo aquilo que pensaram que ninguém seria

Exatamente isso tá ligado, Baco é fruto da cena ao mesmo tempo que era tudo aquilo que pensaram que ninguém seria. A propósito, muito massa a comparação com os manos serem mundos e ele ter visto vários rodar.

Rezo pra que a morte me esqueça
Penso em minha mãe sempre que tentam me matar
Por isso a coroa nunca sai da minha cabeça
Oldisgraça esta em todos os cantos
Somos reis e rainhas

Ser negro e conseguir envelhecer no Brasil é contrariar estatísticas, já dizia Racionais, logo, apenas por existir Baco já é constantemeante ameaçado. Esse uso do duplo sentido de coroa na cabeça é massa pra caralho e pra quem não sabe, Oldisgraça é o antigo grupo de rap dele.

Justiça é cega vê tudo negro
Por isso todo culpado é negro
Todo morto é negro
Vocês são cegos
Meu som é o braile do gueto
É o baile do gueto

Bem, ele segue no som lançando aquela™ cutucada no racismo estrutural que infelizmente segue firme e forte sem pretensões de acabar num futuro próximo. Depois ele manda uma linha pros “cegos” que eu colocaria como aqueles que curtem seu som mas viram as costas para a favela, logo precisariam do seu som para “tatear a favela” através do braile para conhecerem. Massa

Por último no som temos:

Meninas brancas guardavam celulares quando me viam
Hoje tiram celulares para guarda uma foto
Tipo Tim Maia, preto clássico embaçado racional
Eles querem ser James Bond
Eu não morro antes de ser grande igual James Brown

O que que eu vou te dizer hein?? Mano, esses primeiros dois versos já basicamente resumem a adolescência do cara tá ligado? A controvérsia racial que se traduz através do simples ato de se tirar uma foto rolando hoje enquanto até ontem estavam se “protegendo” dele na rua.

Aliás, tem esse som do BK – Vivos feat. Baco em que tem esse verso feito pelo BK:

Baco, o que escondia o cel’ na bolsa
É a mesma que quer tirar foto fato que quer tirar a roupa, é foda

Aí já é outro nível mas cês pegaram a visão.

O terceiro som do álbum já é um rolê mais complicado, acredito que muitas pessoas não saibam disso mas ele foi retirado do álbum após o lançamento por culpa de questões burocráticas sobre o uso de um sample do Milton Nascimento em Francisco, que, segundo ele, não tinha sido autorizado. Enfim, o som se chama Oração à Vitória e mermão, esse é o som mais visceral deste álbum em minha humilde opinião. Na moral, é um trap violentíssimo mano, e puta que pariu esse sample encaixou como uma luva.

Tu sente o Baco lançando essa com raiva, saca? Um som que mostra mais dualidades, sentimentos e atitudes conflitantes mas não necessariamente opostas, sabe? Aliás, nesse som eu vejo bastante a ideia do apolíneo e o dionisíaco do Nietzsche.

Como esse som foi removido do álbum, tu só acha ele no youtube hoje em dia.

Sem mais delongas maninho, o som abre com uma saudação a Exu:

Larô Exu, larô Exu
Mojubá Exu, mojubá Exu
Aos inimigos, keny ore amade kekere
Pelé, pelé, pelé ni
Exu dara dara, caminho
Exu dara dara, prosperidade
Exu dara dara, oô
Axé Exu, axé
Axé ô
Sempre Ajo
Nunca Ejo, Exu
Axé Exú
Larô Exú
Mojubá papai
Mojubá

Com uma googlada eu achei isto aqui:

“Ele faz uma saudação ao Orixá Exu ao dizer “Larôye”
(Laróyè), pede a benção “Mojubá” (Mo júbà). Pede calma na caminhada e que os inimigos sejam pequenos diante do seu caminho, pede a Exu que abra e dê caminhos, que traga prosperidade, pede Axé (Àse) — força e energia, confirma ao dizer “Axé ô”. Pede que tenha sempre união “Ajo”(ajò) e nunca “Ejo” (ejò) — fofoca.”

Já mostrou pro que veio tá ligado? A parada vai ser pesada então já vamo se benzer logo no início pra poder segurar a bronca que virá.

E se eu tivesse morrido pós Sulicidio hoje
Eu seria um mito
Tipo Dani Alves, passo e finto
Tipo amor, eu passo e fico
Tipo o oceano, mesmo violento mano, eu pacifico

Na moralzinha mano, eu arrepio TODA VEZ que eu escuto esse verso, o bicho chegou chutando a porta com as duas pernas. De fato me pergunto o que seria da imagem dele caso ele tivesse morrido pós Sulicídio e a resposta sempre é essa. O jogo de palavras com amor, passo e fico pacifico é simplesmente genial mano.

Me tratam como animal
Virei urso agressivo
Mostrei os dentes antes de morder
Inocentes acharam que era um sorriso
Que era apenas um sorriso

De novo a sua relação conturbada com a sociedade se mostrando através das rimas, Baco mostra que se tornou alguém em constante estado de alerta, mesmo durante um momento mais à vontade, como quando sorri.

Ainda transamos com sol quente na cara
Com dinheiro no bolso
Mas, a polícia me para

Bem, aqui ele basicamente diz “não importa o que eu faça ou quanto tenha a polícia ainda vai continuar me parando pela minha cor” e né, infelizmente ele tá coberto de razão. Foda.

Gozo dentro e sinto que eu crio vida
Siririca no gatilho e sinto que eu tiro vida
Somos onipotentes minha querida
Imortais mesmo que em memórias esquecidas

Aqui ele mete uma metáfora massa relacionando o ato de gozar, o ato divino de se criar uma vida e a morte que se dá após o ato de “siriricar” o gatilho de uma arma e de fato matar alguém. De resto no verso eu acredito que seja mais ou menos o teto do Djonga em Eterno no qual ele sente que se tornou imortal ao fazer música.

Hollywood no bolso mas eu não sou um artista
Sofro de violência crônica
Eu sou um cronista

Essa aqui é uma arriada violenta, apesar de que eu nunca ter conhecido alguém que elencou Hollywood como o seu cigarro favorito mas é isso. Seguindo temos o jogo de palavras com a violência crônica que ele vivenciou no seu bairro seguido da afirmação de ser um cronista em todos os sentidos graças a isso.

Adidas sujo de sangue a cada conquista
Eu sou Bahia
Mas vermelho e preto são as cores da pista

Essa aqui é crua irmão, pelo amor de deus, máximo respeito na moral, relacionou o time Bahia (que é o seu clube de coração) com o seu maior rival, o Vitória (que possui as cores vermelho e preto) porém as ruas estão cobertas de sangue oriundo dos pretos. Cehloko.

Essas rimas são mais surreais
Que um quadro de Salvador Dali
Fugindo da tela

Ah é, lembrei agora, um parênteses, tem muita referência poética e literária nesse álbum porque a mãe do Baco é professora de literatura e uma baita referência pra ele.

Salvador Dalí foi um baita pintor surrealista e bem, nada melhor que uma obra dele pra ilustrar a referência:

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A Persistência da Memória

Fora dizer que eu acho esse quadro do caralho, eu não entendo lhufas sobre arte e não consegui tirar mais nada disso.

Bem, seguindo neste tom mais sombrio temos o som bad vibes total do álbum, En Tu Mira.

Depressão, desabafo, cobranças, dúvidas e até mesmo um pedido de ajuda, esse som condensa coisas demais pra sua curta duração.

Abrindo o som temos logo de cara:

Baco, cadê o ano lírico e o CD do ano?
Eles tão me cobrando
Eu tô trabalhando
Minha mulher brigando
Meu amor, eu te amo

Lembra do contexto lá no ínicio? Aqui tá a maior consequência dele, por estar em evidência após balançar a cena do rap nacional e ter gerado um hype que possivelmente ultrapassou a própria imagem. Cobranças mano…. cobranças, o fardo de corresponder expectativas é capaz de corroer até o mais forte dos homens e aqui não foi nem um pouco diferente.

Se você tem nome de Deus, por que erra tanto?
Por que eu ainda canto?
Seus irmãos estão te odiando
Sua família, você tá largando
Por que grita tanto?
Deus tá dormindo, vai acabar acordando
Por que você fala tanto de Deus?
É porque eu sou humano
O público não entendeu
Por que você fala tanto de Deus?
É porque sou um, mano

Bem, acredito que todos vocês conheçam o deus Baco/Dionísio e ele vai total contra o conceito de deus proveniente de religiões abraâmicas/monoteístas (cujo deus é aquela figura perfeita, onipresente, onipotente e onisciente). Seguindo nesse verso temos questões existencialistas que parecem atormentá-lo.

Compra uma arma, quanto tá o cano?
Eu tô comprando

Aqui mano é aonde o som começa a desandar nas ideia, impulsionado pelas idealizações suicidas Baco se dispõe a pagar o preço que for para conseguir uma arma (fica ligado que isso vai fazer uma conexão em seguida).

O Deus que habita em mim, eu tô libertando
flash está me cegando
O álcool está me matando
Minha raiva está me matando
Sua expectativa em mim, está me matando
Homem não chora, foda-se, eu tô chorando

Ih mermão, desandou a maionese, usguri se perderam na tristeza, tá tudo desmoronando.

Por fim, aqui notamos que ele simplesmente chegou nos seus limites físicos e emocionais diante de tudo que a fama súbita lhe trouxe.

Como disse Rashid em Ruaterapia com o Mano Brown (aliás, QUE SONORA):

Pra uns, o holofote é pior que o ópio

Acredito que dentre todas as coisas que a vida de artista proporcione, a fama seja uma das piores coisas, senão a pior, a ser lidada. Bem, seguimos com:

Onde eu guardei o cano?
Hoje, ele encosta no meu ouvido e fala “te amo”
Porra, eu te amo

Ai meu deus. Essa aqui me arrepia até o último pelo do cu. O mais insano é que dá pra associar facilmente a metáfora de algo capaz de te matar (nesse caso o cano) e ele “falar te amo” com um relacionamento abusivo, saca? Aquela pessoa que apesar de toda a desgraça que ela causa encosta no teu ouvido pra dizer que te ama.

Enfim, falar sobre suicídio é complexo demais e essas linhas são pesadas demais mano.

Fechando o som temos:

Isso é um pedido de socorro
Você está aplaudindo
Eu tô me matando, porra
Eu tô me matando, porra
Eu tô me matando
Você está aplaudindo e eu tô me matando
Eu tô me matando

Acho que corresponder, ser capaz de entregar aquilo que as pessoas querem ouvir, ou que não sabiam que queriam ouvir até de fato ouvir, deva te matar de alguma maneira. Creio que seja essa a ideia aqui, Baco está tendo que matar quem ele é para poder entregar o que é “esperado”.

Chegamos na metade do álbum, com a sua faixa homônima Esú. E meu, o que que eu vou te dizer? Esse som é do caralhíssimo, o beat, as referências, o refrão, tudo muito bem produzido e encaixado. O sample desse som é tirado a partir do Mistério do Planeta — Novos Baianos. Trampo fino.

Eu diria que esse som se trata sobre uma busca por si próprio, saca? O quanto Baco é composto por sua religiosidade, a relação com o suposto equilíbrio entre sua humanidade e divindade. Sem falar também na ideia de normalizar religiões de origem africana (que convenhamos né, já passou da hora da gente aprender a respeitar isso)

Em uma entrevista para o Genius, Baco disse:

Deus só tem forças se a gente acreditar nele, e a gente só tem força se acreditarmos em si mesmo. Então, nós somos deuses.

O som já abre com o refrão, cê liga como ele vem:

Sinto que os deuses têm medo de mim
Medo de mim
Metade homem, metade Deus
E os dois sentem medo de mim
Sinto que o mundo tem medo de mim
Medo de mim
Metade homem, metade Deus
E os dois sentem medo de mim

Sabe o que é um teto, eu tava lendo um pouco sobre Exu antes de começar a escrever e eu achei isso:

Exu é o orixá da comunicação, da paciência, da ordem e da disciplina. É o guardião das aldeias, cidades, casas e do axé, das coisas que são feitas e do comportamento humano.

Essa relação com o comportamento humano e comunicação deve ter sido o que causou essa identificação com o Baco, saca? E é justamente o que ele levanta nesse refrão, o senso comum e o preconceito perdurando essa ideia negativa de Exu e consequentemente dele também. ‘Kelas coisa né meu consagrado, tudo aquilo que é incompreendido primeiro causa medo e repulsa pelos homens.

Componho pra não me decompor
Poeta maldito perito na arte
De Arthur Rimbaud
Garçom, traz outra dose, por favor
Que eu tô
Entre o Machado de Assis e o de Xangô
Soneto de boêmia poesia, melancolia
Eu sou do tempo onde
Poetas ainda faziam poesia

Assim ó, o tio precisa dizer isso, o flow dele nesse som tá NO AUGE tá ligado? Perfeitamente encaixado, na métrica, respiração cadenciada, avemaria. Esse trecho é bem autoexplicativo, não creio ter nada pra acresentar aqui além de que Arthur Rimabud foi um poeta francês que viveu no século XIX, rebelde e boêmio.

Ah é, entre o Machado de Assis e o de Xangô é muito brabo, bah tá louco, brabo.

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Pra quem não tá ligado, aqui vai uma representação de Xangô

Prosseguindo temos o pré-refrão:

O canto de Ossanha vem me matando
E quem canta os males espanta
Não tá mais adiantando
Aqui se escuta o batuque do trovão
Thor e seu martelo, Jorge e o seu dragão
Ciranda do céu, rave de tambor
Os deuses queriam chorar por amor

Ossanha é outro Orixá, responsável pelo axé, folhas medicinais e liturgia (esse último seria um compilado de ritos e cerimônias). Segundo o que achei na internet, ele é um dos grandes e nenhuma cerimônia pode ser realizada sem a sua interferência.

Bem, dada a intro temos outra referência pra contextualizar aqui, a música Canto de Ossanha do atemporal Vinícius de Moraes. É um som altamente melancólico naquele ritmo GOSTOSO POR DEMAIS da bossa nova, enfim, ao dizer “e quem canta os males espanta não tá mais adiantando” nos mostra que ele tá ficando sem saídas para seus tormentos internos.

Agora eu vou dar uma abstraída grande, quando ele diz que “os deuses queriam chorar por amor” a primeira referência que brotou na minha mente foi um filme do Cavaleiros do Zodíaco, Prólogo do Céu, que se passa depois da saga de Hades e tipo, o teto desse filme é mostrar que os deuses sentem inveja dos humanos por culpa da sua força de vontade, tipo, basicamente dizer que o trunfo da humanidade é poder superar os próprios limites e isso faz com que o nosso potencial seja ilimitado, causando inveja nos deuses. Enfim, muito do caralho.

No segundo verso eu gostaria de destacar o speedflow dele, coisa rara pro Baco devido aos problemas de dicção e mais isso aqui:

Imerso no teor complexo
Que nos consome
A dor some
Ao ver que os deuses têm
Inveja dos homens

Reforçando o teto que tive ali em cima. Bem, bora pro próximo.

Como sexta faixa do álbum, temos Capitães de Areia, sim, referência máxima a Jorge Amado (que se alguém não sabe, também é baiano) e seu homônimo clássico da literatura brasileira. O sample foi retirado de Banditismo Por uma Questão de Classe — Nação Zumbi e adicionaram uns riffs brabíssimos de guitarra, bem, como vocês puderam notar esse som simplesmente grita NORDESTE.

Logo no começo temos:

Carrego comigo coragem de Erê
Carrego comigo coragem de Erê
Carrego comigo coragem de Erê
Carrego comigo coragem de Erê

O livro se trata sobre crianças abandonadas, moradores de rua, que sobrevivem roubando. Erê seria o espírito das crianças, simbolizando a pureza e a inocência, sendo assim Baco relaciona-os logo no início do som.

Vale ressaltar que rola um jogo de palavras para encaixar com o próximo verso, ao pronunciar “de Erê” parece que ele está dizendo “dinheiro e” e bem, confirmamos isso aqui:

Carrego comigo coragem, dinheiro e bala
Palavras de Pedro Bala
Palavras de Pedro Bala

Não foi só o sample que Baco retirou do som da Nação Zumbi, a linha “carrego comigo coragem, dinheiro e bala” também está em Banditismo Por Uma Questão de Classe. Pedro Bala é o líder dos moleques no livro.

No mais o som parece um grito de liberdade e uma tentativa de desopilar, botar pra fora o que tava entalado na garganta.

Eu tô brindando e assistindo
Um homofóbico xenófobo apanhando de
Um gay nordestino
Eu tô rindo
Vendo uma mãe solteira espancando o PM
Que matou seu filho

Não falei? Lembrou direto aquela do Djonga — Esquimó:

Onde tem quem acha graça zoar viado
Eu acho engraçado um racista baleado

Bah essa é pra cantar com os dois dedos do meio levantados. Cehloko.

Me olho no espelho, vejo caos sorrindo
O karma sorrindo
Eu nasci no dia que viram a raiva parindo

Um prazer quase sádico se enxergar dessa forma, ahh, a rebeldia jovem vive nesse verso.

7º som do álbum se chama Senhor do Bonfim e esse som é íntimo para um senhor caralho, começando pelo fato de que a Igreja do Bonfim estampa a capa do álbum e a metáfora hedonista que ele faz com a anuária lavagem das escadarias dela. Abrindo o som temos:

Dedos molhados não julgam
Dedos molhados não julgam, não julgam, não julgam
Dedos molhados não julgam
Dedos molhados não julgam
Dedos molhados não julgam, não julgam, não julgam
Não julgam, não julgam

‘Kelas coisa né meu consagrado, quem tá transando não tá ocupando apontando os dedos e julgando.

Seguimos com ele dizendo:

Embriagado
Jogado na cidade
Questiono minha sanidade
Não tem solução
Insistem em me dar remédios
Me sinto sufocado entre as paredes desses
Prédios
E entre o tédio
Outra vez no psiquiatra
O que é claro pra ele
Pra mim tem forma abstrata
Tenta me tratar
Maltrata minha inteligência
As vezes até duvido da sua existência

Claro questionamento sobre a sua saúde mental, logo de cara, incompreendido, cheio de dúvidas e sufocado pelos questionamentos Baco se coloca numa posição vulnerável, na qual ele tenta buscar ajuda mesmo que incapaz de compreender a mesma.

Mais pra frente no som temos isso aqui que me chamou a atenção:

Fazendo a lavagem na cena
Eu sou o Senhor do Bonfim
No princípio era verbo e meu verso é o fim

Referenciando diretamente a tradição da anual lavagem das escadarias, que após pesquisar descobri que essa tradição foi iniciada por católicos e só posteriormente foi adotada pelos candomblecistas, Baco faz a alusão de limpar a cena do rapgame com suas linhas.

Também temos uma metáfora com o evagenlho de João, ao dizer “no princípio era verbo”, propondo que a cena está sendo recriada a partir dele. Brabo, referências bíblicas pra bater no sincretismo religioso.

Ocupando o 8º lugar no álbum temos A Pele Que Habito e bah esse som pra é o meu favorito, disparado, A COMEÇAR PELO SAMPLE, diretamente extraído de uma música do maestro e compositor Arthur Verocai-Dedicado A Ela e convenhamos, esse aqui é obrigatório, cês devem ouvir esse som. Essa faixa também tem um clipe excêntricamente representativo.

E claro que o nome homônimo ao filme de Pedro Almodóvar não foi ao acaso e este som retrata o lado carnal e sentimental de Baco, expondo seus desejos e por fim aceitando-se.

Abrindo o som temos:

Responsabilidade de sombra de sobra
Me seguem, percebe
O peso, o tempo faz tudo ficar leve
Amores de anos se tornam breves

Aqui ele já expressa que seus fardos são pesados porém completa dizendo que é tudo uma questão de tempo, pois o mesmo é capaz de transformar tudo, inclusive amores de anos.

A vida sangrenta, sexo em greve
Ventre em febre
Um corpo em cólera
Frio na barriga, cólica

Eu poderia dizer que aqui ele tenta expressar uma agonia eterna? Não sei dizer, mas me parece muito que quer passar a mensagem de que o corpo humano não seria essa tão dita “obra perfeita”.

Nessa lua de mel hoje ninguém dorme cedo
A noite é negra como deuses gregos
Dedo, no grelo
Estátuas guardam meus segredos

Logo de cara quando ouvi isso eu lembrei mais uma vez do Djonga, dessa vez em Verdades Inventadas:

E ela tem:
A voz que me sobe as calça

É meu mano, acredito que todo mundo tenha aquela pessoa cuja voz te faz “subir as calças”, assim como “nessa lua de mel hoje ninguém dorme cedo”.

Entre um verso e outro ele repete diversas vezes “eu faço parte da noite” e eu creio que isso tenha diversas implicações, tanto em sua negritude, religião e até a romantização da noite, feita diversas vezes por poetas e músicos ao longo de nossa história.

Me lembrou mais uma vez Emicida em Só Mais Uma Noite:

Violentamente encantadora, friamente aconchegante
É o habitat natural dos vampiro
E o labirinto pros sonhador

Claramente botando a noite como o momento mais criativo para aqueles que vivem das suas inspirações.

É era do sintético, cês consomem, droga no
Fone
Gênio com problemas com álcool
Eu sou Nina Simone
Negão de tirar o chapéu
Quem falou foi Alcione

Batendo mais uma vez na tecla de que o que está no hype são os raps mais comercialmente produzidos, Baco encaixa de cantinho a única punchline deste som, logo após reafirma seu compromisso com a boêmia, usando pela primeira a palavra “problema” para definir a sua relação com o álcool.

Depois temos aquela pagadinha com classe, citando a deusa Alcione em sua música Meu Ébano.

Somos a África, corpos com fome
Ela grita me come, goza e grita tome
Meta homem
Mas não se emocione
Mas não se emocione

Aqui rola um dos meus versos favoritos nesse som, mostrando o desejo pelo envolvimento durante o sexo ao mesmo tempo que coloca uma barreira sentimental. Como se precisasse manter a “postura de homem”.

Último verso que gostaria de destacar deste som é este:

Desde o começo é o mundo contra nós
Por isso todo ano juram apocalipse

Rapaz…. Isso pra mim destila inteiramente o ódio que tem dentro dele, afinal o mundo nunca foi e nunca será por nós. A opressão estrutural do capitalismo simplesmente te impede de seguir seus sonhos e a reação mais natural de todas é jurar apocalipse.

Eu paguei tanto pau pra esse verso que tenho tatuado na minha costela.

Depois temos uma guitarra nervosa pelo próximo minuto e meio e caralho velho, apenas grandioso ter esse momento pra curtir a melodia pós linhas. É como se te servissem um baita prato principal e uma sobremesa surpresa, afinal esse lado mais musical não é muito comum no rap.

Penúltimo som deste álbum certamente é o mais conhecido de todos, ahammmm, a love song que a gente não sabia que precisava, Te Amo Disgraça, com o sample tirado de Senta Firme-MC Duduzinho. Mano, o que que eu vou te dizer sobre esse som? (além de que é absolutamente nocivo transar fofinho ouvindo ele enquanto faz contato visual)

Apesar de que hoje, 2019, eu já esteja meio saturado de ouvir esse som não dá pra negar o sucesso absoluto dessa faixa.

Não tem muito o que aprofundar nesse aqui não, ele é bem autoexplicativo, ritmíco, altamente relacionável e mano… pra se ouvir com ela(e), meia luz e torrando aquele bem bolado tá ligado? Selo ehusguri de qualidade.

Finalmente chegamos no último som do álbum, Imortais e Fatais e cara, ele não tinha como fechar o álbum de uma maneira melhor sabe? É como se esse som tivesse um tom conclusivo após esse turbilhão de sentimentos expressados ao longo do álbum.

Uma ideia de aceitação aliada ao reforço dos valores e símbolos culturais envolve esta faixa. Temos um sample avançadíssimo do Vinicius de Moraes-Tempo de Amor.

Toda cicatriz um dia abre
Seus sonhos não cabem mais nessa cidade

Logo após o ínicio do verso, Baco lança essa daqui que chamou a minha atenção. Primeiro pela metáfora de toda cicatriz abrir eventualmente, o que me leva a pensar que existem problemas que nunca serão superados, apenas aprendemos a conviver com eles, como se deixassem uma cicatriz que abrirá mais cedo ou mais tarde.

Já o segundo verso isolado, vou falar bem a real, essa frase me pareceu muito millennial, mano, na moral. Achei bem relacionável pelo fato de que a maioria das pessoas que conheço possuem sonhos que não cabem mais nesta cidade.

Voe alto como Ícaro, montado em Pegasus

Essa aqui bateu retaço também, e bem, acredito que vocês conheçam a lenda de Ícaro, filho de Dédalo (aquele que projetou o labirinto pro Minotauro, que eventualmente foi morto pelo Teseu) que acabou morrendo por voar perto demais do sol. E o nosso querido alazão Pégaso é um símbolo da imortalidade, pegaram o link entre os dois? Massa né.

Sua jaula já não me prende
Meus ancestrais todos foram vendidos
Deve ser por isso que meu som vende
Deve ser por isso que meu som vende
Escravizaram meu povo por dinheiro
Quero dinheiro pra não ser escravo
A Lei Áurea é todo verso que eu escrevo

Pesado meu guri, esse aqui é pesado. Já falei sobre o teto da emancipação do negro através do dinheiro na análise do Djonga e aqui não é nada diferente.

Sobre o verso da lei áurea, a interpretação que eu tive é de que seus versos são mais libertadores do que a mesma lei que “liberou” os negros, como se tivesse devolvido a autoestima e capacidade de se amar para os seus. Estaria alguém realmente livre vivendo sob um sistema aonde existe uma opressão cultural e sistemática? Teria afronta maior do que perante toda a desgraça o oprimido sorrir e se amar?

Essa ideia do amor próprio é refletida na ponte da música, que vem logo a seguir:

Me ame, mas se ame primeiro
Me ame, mas se ame primeiro
Me ame, mas se ame primeiro
Me ame, mas se ame primeiro
Me ame, mas se ame primeiro
Me ame, mas se ame primeiro

Bem, depois disso temos o pré-refrão e o refrão propriamente dito e o início do segundo verso, que chegou como? Avançado pô.

Me chame de sol
Eu sou Apollo Creed

Aqui Baco faz uma referência dupla ao nome Apolo, comparando o deus do sol com o personagem negro do filme Rocky, o Apollo Creed.

No bar das putas com Bob
Fazendo outro brinde
Outra cerveja gelada

Eu sempre fico muito curioso quando citam nomes nas músicas e Bob é um integrante da famigerada facção carinhosa, tão citada nas músicas de Baco. Bar das putas é um lugar que tem ceva gelada baratinha, e seu nome de verdade é Sol Brilhante e fica num bairo classe média em Salvador.

Volte no passado
Beethoven me escutava

Meu, na moralzinha, eu acho do caralho a maneira que rappers dão uma pagadinha de “sou foda” através das linhas. Lembrando que Beethoven foi o fodendo BEETHOVEN sendo surdo e ao dizer que ele escutava-o dá aquela tom debochado com o selo ehusguri de qualidade.

Vejo felicidade em fazer nada
Ser humano não se contenta mais com nada
É tipo ter a mulher perfeita
E sonhar com outra pelada
E sonhar com outra pelada
E sonhar com outra pelada

Bem gurizada, aqui basicamente temos aquele niilismo de sempre, existir é sofrer e o ser humano é uma máquina ambulante de autosabotagem. Sempre vai existir um motivo de insatisfação, representado através do cara que tem a mulher perfeita do lado mas continua sonhando com outra.

Felicidade é um padrão
Te chamar de feio
E você se acha lindo

No final do som a gente tem essa linha maravilhosa, que me pegou muito de surpresa. Autoestima é algo importante demais nas nossas vidas que não é ensinado em momento algum pela escola ou pelo trabalho. E não tem coisa melhor do que estar em paz com aquele(a) que você enxerga no espelho.

Bah, chegamos no fim de mais um mano e cehloko, esse álbum é simplemente incrível, ainda mais quando tu leva em conta que é o 1º trabalho de estúdio dele. Sujo, debochado, polêmico, libidinoso e frágil. Esse trampo é completo e revela diversas facetas de Baco que apesar da idade representou ser digno do peso que é segurar o mic.

Não esqueçam de conferir os links da publicação. Até a próxima segunda meus caros, fiquem bem.

Publicado por William Sandino

Alguém que adora dar pitacos sobre o que acha que entende

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