Ato Justiça para Beto (20/11) e reflexões sobre o caso. Vidas negras importam!

O Dia da Consciência Negra de 2020 foi marcado por indignação e luto em Porto Alegre. Na noite anterior à data (19), ocorreu o assassinato de João Alberto, cidadão negro espancado até a morte no Carrefour do Passo d’Areia por dois seguranças do mercado. Um deles é PM. O caso trouxe angústia e medo, principalmente para muitos negros em todo o país, esgotados com as diversas formas de violência seletiva por parte do Estado e instituições privadas.

No dia 20 e ao longo desta semana, ocorreram atos e protestos em todo o Brasil. Na capital gaúcha, a manifestação iniciou em frente ao mercado onde ocorreu o homicídio. Todas as imagens apresentadas no texto são pelo olhar do fotógrafo Gabriel Garcia.

Cidadãos de todas as cores e idades compareceram ao protesto para clamar por justiça e pelo combate a práticas e protocolos racistas. Iniciado por volta das 18h daquela sexta-feira, o trajeto do protesto iniciou em frente ao Carrefour do bairro Passo d’Areia, na avenida Plínio Brasil Milano (zona norte de Porto Alegre), com destino ao estádio do São José, time de futebol da cidade com sede no mesmo bairro.

Diversas pessoas e movimentos se mobilizaram para construir e divulgar o ato. Em especial, os recém-eleitos vereadores Karen Santos e Matheus Gomes, do PSOL, e o M.V.P.I (Movimento Vidas Pretas Importam), de Porto Alegre.

Apesar de organizado inicialmente pelos mais influentes, a alma do protesto se constitui por todos os manifestantes. Enquanto muitos expressavam sua raiva pela voz, bradando por justiça enquanto anoitecia em Porto Alegre, outros exibiam a indignação através de cartazes e emoções incontroláveis, marcadas no semblante daqueles que vestiam coragem em meio às adversidades. Além da motivação trágica do protesto, a pandemia de Covid-19 ainda persiste na capital gaúcha.

Enquanto a passeata seguia seu rumo até o estádio do “Zequinha”, time do coração de João Alberto, a torcida organizada do São José tomava frente, liderando a multidão ao som de tambores que soavam como luz de motivação ao retumbar nas avenidas da zona norte. Essas imagens podem ser vistas na página oficial da torcida.

É melancólico acompanhar as ruas cheias, mais uma vez, clamando por políticas que combatam o racismo. Pelo senso de comunidade, a vontade de potência que dribla, pelo menos por alguns minutos, a avassaladora sensação de imobilização ao enxergar a incapacidade cultural, social e institucional de promover mudanças necessárias em um curto período de tempo.

De que modo o racismo internalizado foi determinante no caso?

“Estava assustada”, “olhar agressivo”. São trechos pequenos, embora impactantes, do relato da fiscal de caixa que alegou ter sido intimidada por João Alberto, resultando no acionamento dos seguranças e, consequentemente, no espancamento do cliente.

Tais expressões do relato podem prover de um de muitos fatores enraizados na maneira em que o brasileiro enxerga suas relações raciais: o estereótipo do “negro descontrolado”, do “negro agressivo”. A tese dá margem para entendermos que se o mesmo senhor fosse branco, a reação em cadeia que resultou na morte do Beto talvez não tivesse sido bárbara e desumana. Com “talvez”, quero dizer: muito provavelmente.

Para refletirmos: o que acontece quando essa disparidade de interpretações é institucionalizada e transformada em protocolos de segurança? Ou melhor, qual o efeito de quando esses estereótipos pairam de maneira tão velada no nosso cotidiano e nossa história, reforçado em órgãos públicos e privados que deveriam oferecer segurança e fixados de maneira tão profunda no imaginário de seres humanos preconceituosos e amargurados, que sequer seria necessária a oficialização dessa violência? Resulta no negro visto como inimigo. Como sub-humano.

A responsável direta pelos dois seguranças que cometeram o assassinato, Giovane Gaspar e Magno Borges, é Adriana Alves Dutra. Ela aparece filmando a cena por outras câmeras e, segundo a polícia, a funcionária tinha o poder de cessar as agressões quando quisesse, mas por motivos ainda não relatados, decidiu não fazer. Outro questionamento: de quem vem a ordem para não cessar? É protocolo ou é cultura da empresa?

O negacionismo conservador e a falácia do Brasil “não ter racismo”

O Bolsonaro disse ser “daltônico”: “todos têm a mesma cor”. O Mourão não sentiu vergonha ao dizer que “no Brasil, não existe racismo”. Por que?

Outro questionamento: a quem interessa que o negro brasileiro não desenvolva consciência racial? Que não se interesse pela história trágica do seu povo no Brasil e nas motivações por trás de ser historicamente preterido e marginalizado? A quem interessa que nada mude?

No Brasil, 75% das vítimas de homicídio são pessoas negras. Não é segredo que possuímos uma das maiores taxas de crimes fatais no mundo, e aliado às noções raciais escravagistas internalizadas e externalizadas no cotidiano, preciso replicar que é óbvio que existe racismo no Brasil. E claro que tu, leitor da Prid, sabe disso. Portanto, aqui vai algo que talvez você ainda não tenha pensado:

Você sabe o que é milícia? Está familiarizado com os “supostos” envolvimentos da família do presidente com milicianos? E se, talvez, para responder minhas perguntas de dois parágrafos acima, fosse a esses milicianos que interessasse que negros e negras não desenvolvam consciência política e racial? Daria margem para começar a entender os porquês das declarações vomitativas do… presidente.

Deixo um vídeo bem didático para quem ouve falar em milícia, mas ainda não sabe muito bem do que se trata:

A falácia dos que defendem vidros e não defendem vidas

No protesto de Porto Alegre, assim como em muitas outras cidades no BR, houve confronto direto entre alguns manifestantes e a Polícia Militar. Na capital gaúcha, houveram os que quebraram as grades do Carrefour, picharam muros e quebraram algumas vidraças, como forma natural de reação ao assassinato de uma pessoa.

Há quem diga que não há revolta pacífica. Frase na qual não possuo uma opinião definitiva, visto que em toda a revolução sangrenta também foi necessário o peso da caneta. Entretanto, para o puritano, é necessário entender que no envolto da palavra “revolta” existe uma raiva que transpassa a importância de uma propriedade privada, de concreto. De vidro.

Temos a certeza que o Carrefour tem dinheiro para arcar com os dias em que esteve fechado por medo das represálias da população. Tem dinheiro para trocar as grades, as vidraças, repor os produtos, repintar os muros e pagar os funcionários (se for decente para tal). Moralistas: não se preocupem! Os vidros foram quebrados, mas não com o sangue de inocentes.

E agora?

A Defensoria Pública do Rio Grande do Sul entrou com ação contra o Carrefour e a Vector (empresa terceirizada que fornecia serviços de segurança ao mercado). São pedidos R$200 milhões em indenizações, que serão destinados a fundos de combate a discriminação. O Carrefour também foi intimado a criar um plano de conscientização contra o racismo e incluir campanhas contra a discriminação no seu planejamento de comunicação.

Infelizmente, nada trará de volta a vida do Beto, que deixa o mundo com apenas 40 anos de idade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: