Adaptação da Arte em Tempos de Pandemia

Nessa altura de 2020, muitos centros culturais já estão reabrindo suas portas. Os protocolos legais estão aparecendo, mas também medidas dos próprios produtores para assegurar a proteção do público. Como tudo é novidade em meio ao caos, quem sai na frente vai acabar criando novas tendências, não é a toa que já estamos adaptando técnicas de voltar à normalidade dos europeus, que agora acabam por encarar a segunda onda da pandemia. Além do uso da máscara e álcool gel obrigatório, luzinhas de ocupado e livre nos banheiros dos espaços culturais, marcações no chão de distanciamento dentro do espaço enquanto as pessoas estiverem apreciando exposições. Aqui no Brasil ainda não é o caso, mas com os teatros, o mais importante é a questão da venda de ingresso antecipado: local numerado, garantir que as duas primeiras fileiras não tenham o público, deixando espaços entre as cadeiras, individual ou por casal. O controle do número de pessoas que chega em um centro cultural.

A adaptação dos espaços para receber o público dá bastante trabalho, exige do profissional um olhar mais aguçado para os detalhes, garantindo a devida segurança do público. Adaptar-se para uma nova realidade é um processo lento, e que envolve não só um produtor, mas toda a categoria de artistas e de quem aprecia a arte.

Com o grande fluxo de manifestações artísticas virtuais, apareceram muitos editais de projetos digitais durante o período de isolamento, para amparar toda a categoria de trabalhadores da cultura. Grandes instituições como Itaú Cultural, Banco do Brasil, e Natura Musical lançaram editais em âmbito nacional e estadual. Com direito a questionamento público como foi o caso do edital do Banrisul, com o seu critério de número X de seguidores nas redes sociais para a participação. Louco, né?!

Houve também o surgimento da Lei Aldir Blanc, pensada no valor de 3 bilhões, apesar do valor ser considerável para o setor, essa verba é repassada para os estados e municípios que tenha convênio com a união. Aproximadamente mil municípios estão recebendo o auxílio. Com vários itens interessantes como salário mínimo ao mês para os trabalhadores da cultura, até o final da pandemia. Um apoio de 10 mil ao mês para os centros culturais e outros benefícios como linhas de créditos aprovadas, vedação do corte de água, luz e internet, congeladas para o pagamento pós pandemia. Suspensão dos tributos federais, prorrogação de um ano em todos os projetos, assim os que estavam em andamento podem ter seu cronograma prorrogado para um ano, o mesmo para a entrega de prestações de contas. Por parte da lei, há também um fomento para atividades culturais online.

OSPA LIVE | Canal do Youtube da OSPA

A internet veio com força nesses meses de isolamento ganhando mais abrangência entre artistas e instituições culturais, tem gerado uma formação de novos públicos, atingindo pessoas de fora de sua localidade, e consegue instigar a imaginação do artista e de quem assiste. Dependendo do formato, não arrecada verba mas pode chamar atenção de empresas para possíveis publicidades e serem incentivados dessa forma. Surgiram novas plataformas para acesso à cultura, de diferentes maneiras tentando suprir a necessidade de expressão da arte.

Arte projetada em paredes da cidade de São Paulo

Dentro disso, a arte se tornou um grande aliado da sociedade durante a pandemia: Livros, músicas, seriados, filmes, apresentações virtuais e manifestações… Para que tudo isso serve em momentos de caos? Continuar aprendendo, entretendo, alimentando o senso crítico da sociedade, e até mantendo a saúde mental de milhões de pessoas. A arte se reinventa a cada instante, ela está entrelaçada com a história do mundo que conhecemos.

Para muitos, a arte é uma estratégia de saúde mental, expressão de sentimentos, alívio de angústias. Produz sensação de pertencimento, identificação e de coletividade. Tudo que criamos artisticamente contém nossa história, nossas memórias, a cultura que estamos inseridos, habilidades que temos, é uma forma de produzir subjetividade. Conseguir expressar através da arte aquilo que não se consegue verbalizar, é uma forma de expressão distinta.

“A arte acentua nossas potências, algo que você consegue fazer é algo que potencializa sua personalidade e seus traços.”

Paloma Adams
Fotografo Gabriel Garcia | Ato “Justiça por Beto”

Na Rússia durante o ápice do isolamento social, aconteceram manifestações, dezenas de pessoas foram presas durante protestos opositores ao governo. Para a artista plástica Alisa Yoffe, a quarentena foi um pretexto para abafar essas manifestações. Os governantes impuseram mudanças constitucionais para consolidar o poder, e ninguém podia protestar contra isso. A arte de Alisa tematiza a perseguição policial àqueles que tem um pensamento contrário e se rebelam.

Obra da artista plástica Alisa Yoffe

Enquanto diversas figuras da saúde aparecem na televisão, tirando dúvidas frequentes, o questionamento que fica é: E os artistas? O que a capacidade da arte habilita os artistas a intervir no meio dessa loucura? Para que serve um crítico cultural quando parece que o mundo tá acabando lá fora?

Aquilo faz a gente esquecer da pandemia é tão importante quanto aquilo que nos lembra dela, parece que independente da gente saber todos os gráficos, todos os dados, as maneiras de contágio, as políticas de combate, parece que existe alguma coisa sobre a atual crise que a gente não consegue entender por completo. Os números são muito grandes, a escala do que acontece parece até mesmo irreal, somos tão pequenos que não entendemos a escala da pandemia, e talvez tenha uma parte dentro de nós, alguma coisa incompreensível, que só a arte parece preencher. 

“Este solo é ruim para certos tipos de flores” pela artista plástica Pamela Zorn

“Para que serve a arte? Para saciar uma sede indeterminada e meio difusa. Que nem um gráfico, nenhuma pesquisa pública parece conseguir saciar.”

Reza a lenda de que durante a Segunda Guerra Mundial, os artistas Matisse e Picasso tiveram um papo sobre a função da arte em tempos de crise. Picasso defendia que a arte deveria denunciar os horrores da guerra e ficou indignado que Matisse estivesse fazendo pinturas alegres e coloridas com a sociedade naquele estado. Ele teria ido questionar Matisse, e o mesmo se defendeu dizendo que o mundo já estava cinza e em chamas. Como ele poderia ajudar as pessoas mostrando ainda mais horror? Cores, vida, esperança, humanidade, era isso que ele queria retratar em sua arte. Eu concordo um pouco com os dois, acredito que a arte tem que ser sim crítica, política e combativa, mas sobretudo, o papel da arte nestes tempos, apesar de tudo, é lembrar que ainda somos humanos. Dar sentido a um mundo, que parece cada vez mais perder o sentido.

“Uma mapa-múndi para 2020” pela artista Marina Camargo

Como dizia Nietzsche, a arte existe para que a realidade não nos destrua. A necessidade de sentir sensações reais tem nos tomado durante esse período, quando nos deixamos afetar por uma obra de criação, ela nos nutre, assim como um alimento ou remédio lhe proporciona uma forma de equilíbrio. Em tempos de pandemia o equilíbrio é um de nossos bens mais cobiçados, e a arte com sua produção de signos imateriais, metáforas, jogo e ilusão é uma maneira de nos fazer alcançar, ou de ao menos se aproximar de um equilíbrio. Artistas tentando criar, articular o que ainda não entendemos, o que não percebemos. Nos fornece esperança, alento, crítica, reflexão e diversão, para que a luz no fim do túnel apareça mais rápido, ou ao menos mais colorida.

E pra ti? Pra que serve a arte em tempos de pandemia?

Publicado por Paloma Adams

Contato: palomadams@gmail.com

2 comentários em “Adaptação da Arte em Tempos de Pandemia

  1. o isolamento social reforçou a importância de produções artísticas e culturais, ironicamente, numa época que nossa classe vem sofrendo tantos ataques e banalizações! já pensou em passar meses em casa sem poder assistir um filme, ou ler um livro!? eu ia surtar kkkkkkkk

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