Análises sobre o figurino cinematográfico e sua importância

O visual é uma das primeiras questões que notamos em uma pessoa.

As vestes são pontos que quase sempre nos vêm em mente ao falarmos sobre alguém, sobre determinada situação ou sobre determinado grupo e afins.  

Trazendo isso para um contexto cinematográfico, a vestimenta – mais precisamente o figurino – é um dos principais pontos imediatos de percepção estética. Ele é responsável por trazer à tona o espaço-tempo da encenação, mas principalmente por funcionar como um elemento comunicador e comportamental indispensável dos personagens pois lida com simbologias fundamentais e muitas vezes implícitas para o reconhecimento do personagem.

Sabe aquele filme com o figuro impecável e a direção melhor ainda? Isso se dá pelo figurino andar lado a lado com o roteiro e os detalhes estéticos; exemplo claro disso é o filme “Mad Max: Estrada da Fúria” premiado pelo Oscar 2016 nas categorias “Melhor Design de Produção”, “Melhor Cabelo e Maquiagem” e “Melhor Figurino” – Jenny Beavan foi quem assinou o figurino do filme – . O figurinista trabalha diretamente com o diretor de arte e roteiristas pois é através da exposição de ideias do diretor que serão construídos os figurinos em si para transmitir a ideia do filme. O trabalho é colaborativo, porém há figurinistas que recebem carta branca para trabalhar de forma autoral e livre, o que possibilita a expressão da identidade e marca própria.

Filmes clássicos como “O Poderoso Chefão” (1972) possuem diversas “mensagens subliminares” em seu roteiro. Quando falamos de figurino, de estética, falamos sobre significados. Todos sabemos que esse filme é cheio de cenas icônicas, porém quero falar sobre a estética de uma personagem específica: Kay Adams (mais tarde conhecida como Kay Corleone). Observando as vestes de Kay desde sua chegada na família como namorada de Michael Corleone até o casamento, é notável que quase sempre ela usa peças de roupa em vermelho; evidenciando como ela se distancia do comportamento da família Corleone.

Al Pacino (Michael Corleone) e Diane Keaton (Kay Adams) em “O Poderoso Chefão” 1972

Entretanto, conforme o desenrolar do filme, esse tom avermelhado vai desaparecendo, sendo tomado por cores mais sóbrias como cinza e preto, simbolizando o rompimento da personagem com seus ideais e sua aproximação da família. Já no segundo filme, em que totalmente descrente do seu casamento, ela decide se separar de Michael, há uma cena que explicita bem isso: Michael chega em casa e encontra Kay costurando uma peça de roupa vermelha! Isso não é à toa. No momento em que ela decide romper seus laços com os Corleone, esse ato de estar lidando com peças vermelhas traz total simbologia dessa reconexão com os seus ideias e princípios pessoais. Anna Hill Johnstone, figurinista do filme, mandou muito bem nessa técnica e no figurino como um todo.

Kay Adams costurando um vestido vermelho após decidir se separar de Michael em “O Poderoso Chefão” Parte II (1974)

Quer outro exemplo?  Kill Bill Vol. 1 (2003)

Tarantino decidiu fazer uma clara homenagem aos filmes de kung fu da década de 70, mais precisamente aos do Bruce Lee, ao idealizar Beatrix Kiddo com o clássico macacão amarelo como uniforme de luta. O amarelo é uma cor considerada instável, pode ser a cor do otimismo, da irritação, da inveja… Não transmite segurança pois uma única gota de qualquer outra cor quando atrelada a ela, é capaz de transformá-la em uma nova. No filme, a faixa preta que contorna o macacão serviu como complemento para evidenciar o vermelho sangue que suja a peça conforme a personagem mata seus inimigos. Catherine Marie Thomas e Kumiko Ogawa assinam o figurino com grande maestria.

Uma Thurman (Beatrix Kiddo) em “Kill Bill: Vol. I” (2003)

Existem algumas figurinistas contemporâneas que possuem uma identidade própria e que são os primeiros nomes a vir em mente quando olhamos determinados filmes. Ruth E. Carter, com toda certeza, é uma dessas.

Com mais de 40 filmes em seu nome, ela foi responsável pelo figurino de filmes clássicos de Spike Lee e Steven Spielberg como “Faça A Coisa Certa” (1989); “Malcolm X” (1992); “Amistad” (1997); “Selma” (2014); “Marshall” (2017); “Pantera Negra” (2018) e vai assinar “Um Príncipe em Nova York 2” (2021). Com “Pantera Negra”, Ruth ganhou o Oscar de Melhor Figurino, e convenhamos, esse filme dá AULA de referências além do estilo.

Ruth E. Carter com seu Oscar de “Melhor Figurino” (2019)

Ela conseguiu unir perfeitamente o afrofuturismo com as histórias em quadrinhos, além da ancestralidade expressa tanto pelo contexto territorial quanto, e principalmente, pelas vestes. Ela utilizou elementos originalmente africanos de diversas partes do continente, e os adaptou para o filme; como por exemplo as batas com bordados que o rei T’Challa usa quando está a paisana. Muitas desses bordados, na cultura africana, eram feitos com fios de ouros e serviam para designar o status e classe social de quem as usava; assim como os tecidos usados em diversas cenas, fazendo uma total referência aos tecidos ganeses.

Chadwick Boseman (Rei T’Challa/Pantera Negra) em “Black Panther” (2018)

A figurinista também explorou o lado modal do afrofuturismo deixando claro a ausência de decotes tradicionais nas roupas femininas, por exemplo, e inserindo novos recortes como os na altura da cintura e os que evidenciam os ombros. Em todas as roupas de Lupita Nyongo há a presença de tons esverdeados; segundo Ruth, ela quis fazer uma homenagem aos rios verdes da tribo. Além disso, se faz muito presença o uso de peças artesanais e tecnológicas; os colares usados pelas guerreiras surgem como inspirações das mulheres das tribos localizados no Zimbabwe; colares, coroas e chapéus inspirados nos povos Zulus… É uma chuva de referência.

Ruth possui uma ligação forte com movimentos sociais e negritude, o que impacta diretamente nos filmes em que trabalhou. Em uma entrevista dada para a revista Elle onde foi questionada sobre o processo de criação para o figurino de Black Panther e o posicionamento dela em relação aos movimentos sociais, respondeu: “A autenticidade é muito importante para mim. No caso de Wakanda, estou mais ou menos juntando as peças de um quebra-cabeça, o quebra-cabeça de nossa história. A história negra não começou com a escravidão nem terminou com o movimento dos direitos civis. Estou tentando montar esse quebra-cabeça, e, ao mesmo tempo, levar em conta tudo que se relaciona a nós, incluindo coisas atuais como a campanha Black Lives Matter.”

Eu poderia citar muitas outras questões sobre figurinos: no que Betsy Heimann estava pensando quando criou os looks de Vincent Veja e Mia Wallace em “Pulp Fiction – Tempo de Violência” (1994); ou como “As Patricinhas de Beverly Hills” assinado por Mona May, ditaram tendências no mundo do fast fashion; ou também como a estética de Tony Montana em “Scarface” (1994) muito sugestiva procura manter a atenção dos telespectadores devido sua imprevisibilidade, assim como os imensos tapetes vermelhos na mansão de Frank Lopez remetem a poças de sangue.

Depois de tudo isso, fica a mensagem: figurinos em filmes são muito mais importantes do que a beleza que trazem. Precisam ser funcionais, conversar com o telespectador e acima de tudo, expressar o comportamento do personagem. É um trabalho incrível, de uma sutileza e sensibilidade absurda e que precisa cada vez mais ser reconhecido. Fiz muitas pesquisas para construir esse artigo e daqui pra frente, essa ligação entre a estética do personagem e seu comportamento serão pontos cruciais para avaliar um longa assim como a atuação e o roteiro. Se roupa e estilo é expressão no mundo real, por que nas telonas seria diferente já que a arte imita a vida?

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