O Artista Frustrado Por Trás das Cores

Grafite e Imagem de @artistafrustrado

O Grafite é uma arte que existe desde o Império de Roma mas que só se tomou popularidade nas ruas de Nova Iorque nos anos 70, fazendo parte do movimento Hip Hop e se tornando uma manifestação artística nos muros de cidades urbanas. No brasil, essa manifestação artística chegou no final da mesma década, em período de ditadura militar, atingindo principalmente jovens periféricos paulistas que aderiram a essa forma de arte. Ainda assim é visto por muitos como uma prática de vandalismo. Um dos objetivos do grafite é expressar uma crítica social por meio dos desenhos feitos com tinta spray (spray art) ou formas de figuras que possuem recortes (stencil art). Saiba mais sobre a história do Grafite em: https://www.culturagenial.com/grafite/

Grafite do italiano Graffito significando: “escrita feita com carvão”.

Há quem confunda pichação de grafite, a diferença entre as duas é que o Grafite é expresso em sua maioria das vezes por desenhos coloridos e constantemente permitido estar nos muros das cidades. Enquanto o piche são escritas e assinaturas de protesto de teor político – social e proibidos nas ruas, além de ser considerado também um ato vandalístico. O Grafite não deixa de ter esse teor, porém, é no piche em que as manifestações são mais vísiveis e diretas.

Porto Alegre é uma cidade que visivelmente se vê a arte urbana do grafite e pichação. Então, trouxe para vocês uma entrevista com BHOB, pseudônimo do grafiteiro por trás do @artistafrustado que tem seus desenhos e escritas espalhadas pelas zonas da capital gaúcha.

Grafite de @artistafrustrado
  • 1. O Hip Hop é um movimento político-social-cultural que surgiu no início dos anos 70. Ligado a ele se encontra o Grafite. Qual o efeito desse movimento e essa forma de arte pra ti?

R: “O graffiti é muito importante, para a cultura de rua, nos dias de hoje. Esse movimento, de certa forma, trás mais alegria e vida das as cidades. E ele assim como o gol hop num todo, salva vidas. E pra mim, graffiti, é um estilo de vida. Sou muito grato, por poder viver isso todos os dias”.

  • 2. Quando começou a grafitar e por onde?

R: “Comecei no ano de 2011, na zona sul de Porto Alegre”.

  • 3. Quem foi a sua inspiração?

R: “São tantas, difícil não esquecer de algumas. Mas as mais importantes, foram o TONIOLO, DANO, ETKR e o O’CLOCK, um grafiteiro da gringa. Que foi, um dos primeiros vídeos que vi de graffiti, ele me dava vontade de ir pra rua e fazer igual”.

  • 4. Sabemos que há tipos diferentes tipos de grafite, alguns são confundidos com pichação e dados como crime. Com qual tu trabalha mais e se identifica? E o que pensa sobre esse tipo de lei que considera o piche como vandalismo? Acredita que é exagero da lei ou também é uma forma artística de se expressar?

R: “Todo graffiti, rabisco, pichação, desenho, etc.. sem autorização, é crime. E o meu estilo, o que mais pratico é o graffiti sem autorização. A lei é válida, já que ninguém gostaria de ter algo pintado, sem autorização. Não acho exagerada, se é lei, deve ser cumprida. Porém, no nosso país, a tantas coisas piores que o fato de jogar tinta na parede, que causam mortes, estragam vidas, e não são penalizadas. E o crime que mais incomoda, é o nosso…

  • 4.1. Qual o significado dos teus desenhos?

R: “Os meus desenhos, são o meu vulgo, escrito de formas diferentes. BHOBHE ou BHOB, é tudo a mesma coisa, só muda o estilo de letras e cores”.

  • 5. Quem te acompanha nas redes, ta ligado que as tuas artes estão espalhadas pelas ruas e avenidas de Porto Alegre e arredores. Alguém já chegou pra ti e falou “Eai, mano, vi uma arte tua em tal lugar!” Se sim, qual foi a sensação de ter seu trabalho reconhecido?

R: “Já sim! E é estranho ser reconhecido por isso. Mas gosto quando rola isso, saber que alguém acompanha o que tu faz, te dá mais determinação para fazer melhor”.

  • 6. Por que exatamente começou a grafitar?

R: “Sempre gostei muito de desenhar e pintar, desde muuto novo. É um dos meus hobbies preferidos. Daí na adolescência, eu e alguns amigos montamos um grupo no bairro, e começamos a pixar. E gostei muito daquilo tudo. Porém, com isso, vieram as tretas com as famílias, com outros grupos, na nossa escola e alguns foram deixando isso de lado. E eu segui. Daí comecei a fazer tags, stickers e o graffiti, venho como uma evolução. Comecei a gostar muito de bombs, oitava nas letras. Então comecei a estudar e conheci o throw up e foi aí, que decidi o que realmente eu queria fazer”.

  • 7. Teu user é @artistafrustrado. Se considera artista? Por que? Caso “NÃO” Explicar também.

R: “Toda pessoa que produz alguma arte, seja ela o que for, é um artista. Mas não me considero um, pelo fato do meu trabalho, não me render dinheiro, ainda haha”.

  • 7.1. Ainda sobre sua conta no instagram… Tem algum motivo pelo qual não se identifica, ou, gosta de manter o mistério do artista por trás das artes?

R: “É mais pelo fato de pintar sem autorização mesmo. Evitar problemas.. E, é bom deixar as pessoas instigadas, sobre quem poderia ser o autor”.

  • 7.2. Agora uma curiosidade: Quem é o Artista Frustrado? Como chegou a esse nome no user e por quê?

R: “Alguém que busca sempre uma evolução no seu trabalho, que corre pelo coletivo e que coloca muita vontade em todos os seus trabalhos. O user, surgiu pelo fato de, eu sempre ver que, alguns escritores, tinham e muito a vontade de se tornarem famosos, celebridades. Coisa que eu nunca tive. Então fiz para tirar um sarro desse pessoal”.

  • 8. Em sua rede social @artistafrustado aparece uma criança grafitando um muro. Quem é? E como é servir de inspiração para um ser tão pequeno?

R: “É o meu filho! É uma responsabilidade enorme. Ele é um dos meus maiores admiradores, em tudo que faço. Preciso sempre, me manter atento às minhas atitudes, já que sou o espelho dele. E sou muito feliz por isso”.

  • 8.1. Como é sua relação com ele?

R: “A melhor possível. Ele é meu melhor amigo. Meu companheiro pra tudo. Algumas vezes levo ele para as pinturas. Não sei se ele vai seguir, no mesmo caminho que eu, mas ele adora jogar uma tinta na parede também haha”.

  • 9. Sempre quando falamos de grafiteiros é automático que se pense apenas em homens. Na tua visão, por que não vemos tantas mulheres no grafite? Em conversas com amigos e conhecidos seus, acredita que há machismo por parte deles de aceitarem mulheres nesse meio? E tu como homem como pode contribuir para mudar isso?

R: “Hoje em dia, o número de mulheres pintando na rua é enorme. Obviamente, o maior número ainda é dos homens, e isso se deve pelo fato do graffiti ser uma extensão da nossa sociedade. Então o machismo ainda é existe no nosso meio. Eu sinceramente, não sei o que fazer de concreto, para ajudar mais as minas no corre. Mas tento sempre dar visibilidade de alguma forma. Respeito! Tento trazer outras minas para o movimento. E quero escutar delas, o que mais poderíamos fazer, para somar com elas. Acho que ouvindo o que elas pensam, e dando lugar de fala a elas, eu ajudaria muito mais talvez”.

  • 9.1. Tem algumas(s) mulheres grafiteiras que tu tem admiração pelo trabalho delas e até já chegou a grafitar com elas por ai? Nos conte sobre!

R: “Várias. Admiro muitas minas que estão no corre hoje em dia. Seja de Porto Alegre, Brasil ou fora. Sou fã de várias. Vou deixar algumas daqui de Porto Alegre, que eu já tive o prazer de pintar junto, que se o pessoal não conhece, vale a pena conhecer. LOSS, DM TINTA, TITI, CAJU e OCE“.

  • 10. São Paulo é uma das principais cidades do Brasil em que o Grafite se encontra com total visibilidade, alguns grandes grafiteiros como OSGEMEOS, Eduardo Kobra, as gurias que criaram o projeto Mulheres de Artitude como Stefanie Torelli, Fatyma Regina e Angélica de Sena Correado, são de lá. Pensando nisso, já pensou em sair aqui do sul para a região sudeste?

R: “Sempre! Nosso estado não consume a arte, como São Paulo. Lá é um lugar onde o pessoal consegue viver apenas dos seus trabalhos. Aqui, poucas pessoas compram o graffiti. E em um futuro breve, pretendo ir para lá, passar um tempo, pintar na rua, e se possível, fazer um dinheiro com meus trabalhos”.

  • 11. Sabemos que nossa cultura é muito tradicionalista e racista. O movimento Hip Hop aqui no RS, antes da pandemia, estava ganhando grande espaço por meio de batalhas de rap e poesias de rua, festas Blacks-R&B- RAP-Trap-Soul, danças de rua entre outras artes que compõe o movimento. Acha que o Grafite vem conquistando reconhecimento como arte e deixando de ser visto como um movimento marginalizado aqui no sul?

R: “Já mudou bastante de uns anos pra cá. Mas ainda vai demorar mais para que, nossos artistas, ganhem a vida só com a arte. É preciso ter mais espaço e mais visibilidade. O graffiti, atua muito forte com o social. Está presente em escolas, nas vilas, onde por vezes o governo não chega. E as cores, faz os olhos das crianças, e de vários adultos também, brilharem. E isso deveria ser maior. Espero que não demore, para que se perceba isso por aqui”.

  • 11.1. E como você lida com isso?

R: “Por ser um artista de rua, essa questão de ser “marginalizado” por fazer graffiti, não vai deixar de existir, até porque, eu jamais deixarei de pintar nas ruas. Mas tenho diversos amigos que ganham a vida com isso. Sei o peso que é, viver apenas com o que a arte te proporciona, por isso tento passar uma visão diferente para as pessoas. E também divulgo bastante os trabalhos deles”.

  • 12. A pandemia afetou sua arte de alguma forma positiva ou negativa? Pode nos explicar melhor sobre isso?

R: “Mais positiva eu diria. Comecei a estudar mais em cima dos meus trampos. Aprimorei meus traços e estilos. Coisa que talvez, sem esse tempinho “forçado”, eu não conseguiria fazer”.

  • 13. Além do grafitte, trabalha com outros tipos de arte? Quais?

R: “Sim! Diria que, sou hiperativo e minha mente não para um segundo. Por isso, além do graffiti, eu faço poesias e fotografiafotografias. Nada sério, tudo por hobbie mesmo”.

  • 14. Qual teu sonho no meio artístico como artista? Onde tu quer chegar?

R:Considero a palavra “sonho”, algo muito longe de ser atingido. Mas meu maior desejo talvez, seria pintar por aí a fora, Brasil e fora dele, mas com os mesmos estilos e trabalhos que faço hoje na rua, e ainda por cima, ganhar dinheiro para fazer isso. Acho que essa, seria a minha vontade maior”.

  • 15. E qual dica ou o que gostaria de falar para a galera que está iniciando no Grafite? E os que são veteranos?

R: “Dizer que ninguem é, e nem será maior que o outro. Nosso movimento é soma, se não tiver isso, caímos. E estudo! Acho que estudar, é buscar sempre evoluir é a chave. De resto, tinta e mais tinta”.

  • 16. Tem alguma indicação de outros artistas como você e, gostaria de falar um pouco deles aqui e deixar as redes para a galera acompanhar e seguir?

R: Seria muita gente, e com certeza esqueceria de alguém. Mas Porto Alegre hoje, está muito bem representada na cena, e não perde em nada, nem para São Paulo. Mas se quiserem ver outros trabalhos, me sigam no @artistafrustado_ , que lá vocês veram outros artistas que fazem acontecer de verdade.

A arte salva vidas!

Sigam o @artistafrustrado no instagram e acompanhem o trabalho artístico de BHOB. https://www.instagram.com/p/Biw1tQPFiYa/

Grafite e imagem de @artistafrustrado

Publicado por jordasgarcia

Acadêmica de Relações Públicas pela Universidade Federal de Santa Maria - Campus Frederico Westphalen

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